quinta-feira, 13 de julho de 2017

A dupla perfeita

     Há tudo sobre Aécio Neves: a corrupção foi toda gravada, comprovada, de onde o dinheiro saiu, para onde foi, até com células rastreadas (!). Nos grampos ele entrega toda a tramoia, ameaçando até de matar a “mula” caso ela se dispusesse a delatá-lo.
     Perrela, o senador da fazenda onde foram presos 450kg de pasta base de cocaína (em outros termos, mais de 4 toneladas de cocaína pura), diz em diálogo grampeado com Aécio que “só trafica”.
     Os dois milhões da propina que Aécio recebeu da JBS foram justamente para uma empresa do Perrela, onde o dinheiro foi devidamente lavado. Todos os crimes, reitero, devidamente comprovados.
     Ambos continuam no congresso, como se nada houvesse acontecido. Perrela nem incomodado foi. Segue incólume, sequer foi chamado para se explicar sobre o crime que confessou praticar de tráfico de drogas, muito menos do de lavagem de dinheiro.
     Na decisão em que foi reconduzido ao senado, Aécio ainda recebeu elogio de ministro do STF: teria uma “carreira elogiável”.
     Nós bem sabemos de qual tipo de “carreira” Aécio entende.
     Não seria necessário, mas há um grampo de outro senador que também ajuda a contextualizar a triste história política de nosso país. Romero Jucá – outro paladino da moral que prossegue todo serelepe e ileso no congresso – nos elucida sobre um “grande acordo nacional, com supremo com tudo”.

     Concatenando estes fatos pode-se saber porque Aécio, Perrela e Jucá estavam livres, leves e soltos para votar na “deforma” trabalhista que visa destruir os já parcos direitos dos trabalhadores brasileiros.
     Estes bandidos prestam serviço à corrupta, inepta, e vergonhosa burguesia brasileira. Por isso estão soltos. É a estes interesses que eles e outros, como Serra, Sarney e afins representam. Por isso – e só por isso – se dão ao luxo de fazer o que fazem, por isso seguem impunes, roubando, destruindo, conspirando, corrompendo por décadas. A Casa-Grande sabe quem defende e representa na integralidade suas ambições.
     Lula, conquanto tenha feito inúmeras e inúmeras concessões, não é deste métier, nem nunca será. As deploráveis nomeações do petista para o STF ou de Meirelles e sua trupe para o BC, por exemplo, são erros imperdoáveis, mas não o tornam um sangue-puro da nossa elite. É de corar o que o PT fez e – especialmente – o que deixou de fazer para conseguir alguns segundos de exposição positiva no Jornal Nacional, mas por mais que tenha se esforçado, nunca será um deles. A burguesia brasileira não se sente representada pelo retirante nordestino que vendia chiclete na rua aos nove anos de idade. É impossível. Mesmo que esta elite nunca tenha ganhado tanto dinheiro justamente em seu governo – já que quando os trabalhadores alavancam sua renda, os empresários também majoram seus ganhos (o contrário é que não é verdadeiro).

     Grampearam o Aécio por pouco tempo e pegaram de tudo um pouco. Já o ex-presidente e sua família foram investigados por anos. Em todo este período, talvez a fala mais emblemática seja a da falecida Dona Marisa, em conversa com o filho, mandando os coxinhas enfiarem as panelas no cu. Há também outra, do Lula dizendo que o STF estava “acovardado”.
     Neste ponto, ele errou feio.
     Para deixar Aécio, Perrela, Jucá, Renan, Serra, etc., soltos, enquanto se condena Lula, não se pode atribuir tal pecha. Há de se ter alguma coragem para fazer algo de tão obviamente errado. Ou, mais especificamente, há de se ter uma boa cara-de-pau – nem que seja para cometer uma injustiça.

     Quanto ao processo específico do Lula, invertendo tudo, não coube a acusação provar que o apartamento era do Lula, mas a defesa provar de quem é o apartamento. E provou. De maneira inacreditável, foi a defesa que investigou e descobriu que os direitos econômico-financeiros de todos os apartamentos do condomínio em que está o tríplex foram repassados a um fundo da Caixa Econômica Federal em 2010 – pelo fato de a OAS estar em recuperação judicial. Ou seja, a OAS sequer pode vender o triplex, sequer pode passá-lo adiante, pois há um débito da construtora com a Caixa Econômica. Para que qualquer coisa seja feita com o ap., só se a Caixa for informada, concorde com a venda e receba por ela. É, pois, simplesmente impossível que o triplex seja usado para qualquer tipo de propina.
     A acusação, mais preocupada em ganhar holofotes e mídia (que se convertem em palestras bem rentáveis para os acusadores com a fama que ganham, claro), mais preocupada em caluniar e fazer powerpoints, mais preocupada em fazer política por meio judicial, não sabia de nada disso. Eles nem sabiam que o apartamento está vinculado à Caixa. Já tendo chegado à conclusão antes de investigarem, mais preocupados em dar vazão as suas convicções sem provas, se prestaram a fazer uma acusação patética que não resistiu a um esforço investigativo – que teve de ser feito por parte da defesa.
     Lula nunca dormiu uma noite no apartamento. Não pode usar, não pode vender, não pode alugar. Não é dele. Simples assim. Mas Moro diz que é. Se embasa em delações de pessoas que se (e apenas se) entregassem Lula, teriam suas penas de décadas reduzidas a um nada. Nas “provas” que o juizeco arrola, há uma reportagem de “O Globo” e um contrato sem assinatura (!). A escritura, que é documento oficial, foi desconsiderada. O fato de o tríplex estar no meio de um processo de recuperação judicial da OAS e por isso não poder ser repassado sem anuência da Caixa, idem.
     Para que fique claro, portanto, nunca houve um processo contra o Lula. Houve a apenas a formalização da condenação que já estava previamente decidida muito antes de ele virar réu.
     Esta condenação não se dá por conta de uma simplória “maldade” do Moro, mas especialmente por conta de algo mais refinado. A grande burguesia, através dos meios de comunicação, promove uma intoxicação ideológica contínua, atacando quem não representa seus interesses na integralidade. Esta intoxicação encontra território fértil para se desenvolver na aristocracia do funcionalismo público brasileiro que é o judiciário.
     Como disse Goebbels, uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade. Foram mais de cem mil vezes contra o Lula. Especialmente por isso ele foi condenado.

     De qualquer modo, isto não exime a responsabilidade do carrasco. Como bem disse Luis Nassif, “em um país em que os absurdos são renovados diariamente, embora esperada, a sentença de Sérgio Moro é indecente, humilhante. Sua declaração inoportuna, de que não sentiu “satisfação pessoal” tem a mesma sinceridade de Jack, o Estripador, chorando em cima das vísceras da sua última vítima”.


     Nesta elucidativa foto as provas são abundantes. Está tudo aí, cristalinamente exposto, um resumo da política brasileira dos últimos tempos. A única dúvida que resta – a qual não se pode dar um juízo definitivo – é saber qual dos dois é pior.
     Aécio é tão honesto, correto e coerente quanto Moro. São o retrato perfeito da moralidade da burguesia brasileira. Os dois se merecem.

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