quinta-feira, 31 de maio de 2012

O "estranho" grupo (Veja-Gilmar Mendes-Demóstenes-Jobim)


Planeta (Coolvibe)

Julgamento do "mensalão" não terá efeitos políticos - por Weden (blog do Nassif)


Há uma aposta um tanto quanto ingênua, por parte da grande imprensa, nos efeitos políticos do julgamento dos crimes eleitorais (caixa 2) e tráfico de influência, reunidos sob o nome midiático de "mensalão".

Primeiramente, um esclarecimento sobre a insistência em se designar esses crimes bastante comuns em nossa vida pública - e que precisam ser apurados - com um nome fantasia. Não é tanto pelo suposto "pagamento mensal a parlamentares da base de apoio", o que nunca foi provado.

Até porque seria estúpido acreditar que um governo com tão ampla aprovação tivesse que recorrer à compra da própria base que o apóia. E pior: tivesse que comprar parlamentares do seu próprio partido.

O partilhamento de ministérios, de cargos, a liberação de verbas de emendas do orçamento, tudo isso deposita sobre o governo da hora um enorme poder de barganha material em relação à base, e são os meios tradicionais e mais eficazes para manter a base unida.

Portanto, o "pagamento mensal" não existiu porque simplesmente não era necessário.

Não podemos dizer, no entanto, que não houve tráfico de influência e não houve caixa 2 de campanha (com pagamento por fora a posteriori). Houve e isso deve ser julgado.

Mas porque a imprensa não designa, portanto, estes crimes pelos nomes já tradicionalmente conhecidos? Simplesmente, pelo fato de que se assim o fizesse, o "mensalão" perderia sua aura de ineditismo, de prática diferenciada, de escândalo maior.

É como se, com o "mensalão", o governo Lula inaugurasse uma nova prática, no entanto, velha de guerra.

Dilma é Dilma
Daí que chegamos à escolha política do nome. É "mensalão" porque não pode ser confundido com práticas também encontradas nos governos anteriores. Se assim o fosse, perderia o efeito de mídia.

Mas, mesmo mantendo a designação, o efeito de mídia não pode ser confundido com o "efeito político" do julgamento.

Isso porque, para desalento daqueles que torcem pela "agenda do mensalão", nenhum resultado prático o julgamento terá sobre as próximas eleições ou sobre o governo Dilma.

Comecemos pelo governo atual.

A presidenta é uma personagem pós-mensalão. Ela assume a pasta da Casa Civil, justamente, depois do degredo de José Dirceu. Portanto, o governo atual, com Dilma à frente, está imune a qualquer insinuação de que tenha usufruído dos mal feitos da época.

É mais fácil Dilma perder popularidade pela alta do dólar do que por qualquer ilação que se faça sobre alguma coparticipação no escândalo de 2005.

Da mesma forma, o PT-governo pouco será atingido, justamente porque Dilma mantém uma boa autonomia em relação ao partido. Na percepção pública, Dilma é Dilma, PT é PT.

Lula no tempo mítico
Um outro efeito político do julgamento do mensalão seria colar em Lula a imagem de que foi o "presidente do mensalão". Nada mais inócuo na medida em que vai convencer os já convencidos. Para aferir: façam uma pesquisa de opinião dois meses após o julgamento e verão que a popularidade sedimentada de Lula continuará a mesma.

O ex-presidente entrou numa espécie de panteão político. Sua alta aprovação está cristalizada de tal forma, que mais parece ter pertencido a um tempo mítico, do que propriamente a um tempo histórico.

No auge das denúncias do "mensalão" (que se seguiram entre maio e dezembro de 2005), Lula chegou a descer a ladeira da aprovação até pouco menos de "40% de ótimo e bom". Mas, apesar de todos os ataques, ainda manteve mais de 30% de avaliação para "regular".

Isso foi em outubro.

Em janeiro, Lula tinha voltado às mesmas raias de aprovação de antes das denúncias. Como se nada tivesse acontecido.

Não é agora que ele vai sofrer efeitos do tal "mensalão".

Eleição de São Paulo
A última e mais imediata das esperanças dos que torcem por algum efeito político do julgamento do mensalão está concentrada sobre as eleições de São Paulo.

Desgastando Lula e o PT, desgastar-se-ia Haddad.

Pouco provável.

Isso porque o crescimento de Haddad está vinculado à capacidade de Lula e Dilma puxarem votos para o candidato petista. E, pelos motivos acima apresentados, nada sugere que esses dois personagens perderão suas forças até agora demonstradas.

O que pode derrubar Haddad é sua relação de empatia ou não empatia com o eleitorado; a eficácia ou não eficácia da campanha; ou o modo como as pessoas lembrarão dele no MEC.

O resto é espetáculo midiático. Para orgulho e dor da própria grande imprensa.


Comentário:
O que mais me espanta na denúncia do mensalão é sua inépcia: será que os próceres do governo de então cometeriam a insanidade de tentar comprar centenas de congressistas – e achariam que ninguém ficaria sabendo? Será que haveria tantos e tantos ignaros a perpetrar crime tão estúpido de se tentar comprar o congresso e achar que nada vazaria? Não é só duvidar da integridade, é duvidar da inteligência (e, em Brasília, há seres da pior especie, mas de bobos eles não têm nada).
E pior, o feitor da denúncia desconsidera que tentar-se-ia comprar partidos (como o PMDB e o PTB) que possuem membros que, por motivos diversos, são da oposição. Ou seja, com o suposto mensalão, entregariam o ouro ao bandido – tanto por passarem a informação do crime a eles, quanto por propriamente pagarem-nos...
É duvidar demais da inteligência alheia.


Como bem descrito no artigo, os crimes de tráfico de influência (especialmente na tentativa de reerguer bancos liquidados – motivo da dinheirama que Marcos Valério deu ao PT) e caixa dois (crime já admitido) devem ser analisados detidamente e seus responsáveis condenados com o rigor da lei.
Agora crer no “mensalão” é pior do que crer na mula sem cabeça. Aliás, o que falta a mula também falta nos que creem neste escândalo ridículo.

Fotografia - por Chris Brock (User Submission - Inspiration Hut)

Soledad, a mulher do Cabo Anselmo - por Urariano Mota (Blog da Boitempo)



Quem lê Soledad no Recife pergunta sempre qual a natureza da minha relação com Soledad Barrett Viedma, a bela guerreira que foi mulher do Cabo Anselmo. Eu sempre respondo que não fomos amantes, que não fomos namorados. Mas que a amo, de um modo apaixonado e definitivo, enquanto vida eu tiver. Então os leitores voltam, até mesmo a editora do livro, da Boitempo: “mas você não a conheceu?”. E lhes digo, sim, eu a conheci, depois da sua morte. E explico, ou tento explicar.

Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja São Bento”. Essa execução coletiva é o ponto. No entanto, por mais eloquente, essa coisa vil não diz tudo. E tudo é, ou quase tudo.

Entre os assassinados existem pessoas inimagináveis a qualquer escritor de ficção. Pauline Philipe Reichstul, presa aos chutes como um cão danado, a ponto de se urinar e sangrar em público, teve anos depois o irmão, Henri Philipe, como presidente da Petrobras. Jarbas Pereira Marques,  vendedor em uma livraria do Recife, arriscou e entregou a própria vida para não sacrificar a da sua mulher, grávida, com o “bucho pela boca”. Apesar de apavorado, por saber que Fleury e Anselmo estavam à sua procura, ele se negou a fugir, para que não fossem em cima da companheira, muito frágil, conforme ele dizia. Que escritor épico seria capaz de espelhar tal grandeza?

E Soledad Barrett Viedma não cabe em um parêntese. Ela é o centro, a pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para esses crimes. Ainda que não fosse bela, de uma beleza de causar espanto vestida até em roupas rústicas no treinamento da guerrilha em Cuba; ainda que não houvesse transtornado o poeta Mario Benedetti;  ainda que não fosse a socialista marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar Viva Hitler; ainda que não fosse neta do escritor Rafael Barrett, um clássico, fundador da literatura paraguaia; ainda assim… ainda assim o quê?

Soledad é a pessoa que aponta para o espião José Anselmo dos Santos e lhe dá a sentença: “Até o fim dos teus dias estás condenado, canalha. Aqui e além deste século”. Porque olhem só como sofre um coração. Para recuperar a vida de Soledad, para cantar o amor a esta combatente de quatro povos, tive que mergulhar e procurar entender a face do homem, quero dizer, a face do indivíduo que lhe desferiu o golpe da infâmia. Tive que procurar dele a maior proximidade possível, estudá-lo, procurar entendê-lo, e dele posso dizer enfim: o Cabo Anselmo é um personagem que não existe igual, na altura de covardia e frieza, em toda a literatura de espionagem. Isso quer dizer: ele superou os agentes duplos, capazes sempre de crimes realizados com perícia e serenidade. Mas para todos eles há um limite: os espiões não chegam à traição da própria carne, da mulher com quem se envolvem e do futuro filho. Se duvidam da perversão, acompanhem o depoimento de Alípio Freire, escritor e jornalista, ex-preso político:

“É impressionante o informe do senhor Anselmo sobre aquele grupo de militantes – é um documento que foi encontrado no Dops do Paraná. É algo absolutamente inimaginável e que, de tão diferente de todas as ignomínias que conhecemos, nos faltam palavras exatas para nos referirmos ao assunto.

Depois de descrever e informar sobre cada um dos cinco outros camaradas que seriam assassinados, referindo-se a Soledad (sobre a qual dá o histórico de família etc.), o que ele diz é mais ou menos o seguinte:

‘É verdade que estou realmente envolvido pessoalmente com ela e, nesse caso, se for possível, gostaria que não fosse aplicada a solução final’.

Ao longo da minha vida e desde muito cedo aprendi a metabolizar (sem perder a ternura, jamais) as tragédias. Mas fiquei durante umas três semanas acordando à noite, pensando e tentando entender esse abismo, essa voragem”.

Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil. Vocês entendem agora por que o livro é uma ficção que todo o mundo lê como um relato apaixonado. Não seria possível recriar Soledad de outra maneira. No título, lá em cima, escrevi Soledad, a mulher do Cabo Anselmo. Melhor seria ter escrito, Soledad, a mulher de todos os jovens brasileiros. Ou Soledad, a mulher que aprendemos a amar.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Sommarnöje - por Anders Zorn (pintura em tela)

Sobre a corrupção - por Tarso Genro (Carta Maior)

Ao contrário do que torcem - e em parte patrocinam significativos setores da mídia - não está se abrindo uma crise com a instalação da CPI sobre a possível rede criminosa do contraventor Cachoeira. Abre-se, sim, uma extraordinária oportunidade de investigar a fundo, não só um caso concreto, mas os métodos, a cultura, a simbiose (às vezes espontânea e no mais das vezes deliberada), entre o sistema político, o Estado e as organizações criminosas politizadas. Estas, como já está provado, não só interferem na pauta administrativa dos governos, mas também na pauta política dos partidos e podem mancomunar-se com órgãos de imprensa para transitar, ou interesses de grupos econômicos -criminosos ou não- ou interesses dos diferentes partidos aos quais estes órgão são simpáticos.

Para que esta oportunidade seja aproveitada é necessário, porém, que a CPI tenha a predominância de parlamentares que não tenham medo. Não tenham medo de que o seu passado seja revelado - um passado complicado fragilizaria o resultado da CPI -, não tenham medo de ser achincalhados pela imprensa, pois à medida que contrariarem os interesses que ela defende serão ridicularizados por algum motivo ou atacados na sua honradez. Não tenham medo, sobretudo, de encontrar algum resíduo de envolvimento seu, na teia de interesses, manipulada pelo grupo ora apontado como criminoso.

Uma parte da esquerda, na defensiva em função do cerco a que foi submetida principalmente no primeiro governo do Presidente Lula, convenceu-se que as denúncias feitas pela imprensa não passavam de montagens para nos desgastar. Ora, é razoável supor que muitas denúncias são forjadas (em função de brigas entre empreiteiras, por exemplo, ou para desmoralizar lideranças que são importantes para os governos), mas tomar as denúncias como produto de uma conspiração é errado. É deixar de lado que o estado brasileiro, historicamente cartorial, bacharelesco, barroco nos seus procedimentos e forjado sob o patrocínio do nosso liberalismo pouco republicano, tem um sistema político-eleitoral e partidário, totalmente estimulante aos desvios de conduta e às condutas que propiciam a corrupção.

O uso que a mídia faz dos eventos de corrupção, para tentar destruir o PT e a esquerda é, na verdade, um elemento da luta política por projetos diferentes de estado e de democracia. São diferentes concepções de republicanismo que estão em jogo, entre um republicanismo elitista e “globalizado” pelo capital financeiro e um republicanismo plebeu, participativo e aberto aos movimentos dos “de baixo”. Este, considera urgente a redução das desigualdades sociais e regionais, mesmo que isso se choque contra as receitas dos FMI e do Banco Central Europeu: um republicanismo do Consenso de Washington e um republicanismo do anti-Consenso de Washington, é o que está em jogo.

O fato, porém, da corrupção ser “usada” pela mídia, nas suas campanhas anti-esquerda, não quer dizer que ela não exista, inclusive no nosso meio. Então, o que se trata, não é de "amaciar" os fatos, mas de disputar o seu “uso” - o tratamento político dos fatos - para fortalecer uma das duas principais concepções de República que caracterizam o grande embate político nacional na atualidade. O “aceite” deste embate político tem um terreno fértil na CPI, em instalação, e a esquerda brasileira poderá agora, se tiver uma estratégia unitária adequada, amalgamar um conjunto de forças em torno dos seus propósitos republicanos e democráticos.

A atual CPI, ao que tudo indica, vai se debruçar sobre um sofisticado sistema duplamente criminoso: ele promove diretamente, de um lado, a apropriação de recursos públicos para fruição de grupos privados criminosos (através da corrupção) e, de outra parte, promove a deformação ainda maior do sistema político (através de criação de agendas políticas), para cooptar pessoas, vincular mandatos ao crime e, também, certamente, financiar campanhas eleitorais. Se de tudo que está sendo publicado 50% for verdadeiro trata-se de um patamar de organização superior da corrupção, que já adquire um estatuto diferenciado. Nele, o crime e a política não apenas interferem-se, reciprocamente, mas já compõem um todo único, com alto grau de organicidade e sofisticação.

O pior que pode acontecer é que a condução da CPI não permita investigações profundas e que seus membros, eventualmente, cortejem mais os holofotes do que a busca da verdade, ou que ocorram acordos para “flexibilizar” resultados, por realismo eleitoral. Nesta hipótese, ficarão fortalecidos aqueles que hoje estão empenhados em desgastar a esfera da política, que significa relativizar, cada vez mais, a força das instituições do estado e o sentido republicano da nossa democracia.

Este serviço, aliás, já está sendo feito pela oposição de direita ao governo Dilma, pois já conseguiram semear a informação que o governo “está preocupado” com os resultados da CPI. A oposição demo-tucana faz isso com objetivos muitos claros: para que todos esqueçam as raízes partidárias profundas, já visíveis, neste escândalo de repercussão mundial, mas que também é uma boa oportunidade de virada republicana na democracia brasileira.

(*) Tarso Genro é governador do Estado do Rio Grande do Sul.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Antes da batalha - por Kuang Hong (Coolvibe)

Lâmpada ou lanterna? - por Mino Carta (CartaCapital)


Caçador de marajás. Fórmula exitosa explorada por Veja e
pela Globo para fazer do senhor acima o anti-Lula.
Foto: Protasio Nene/AE
Roberto Civita é dotado exclusivamente de certezas. Talvez se deva ao QI. Há 52 anos, em um dia de abril ou maio, vinha ao lado dele pela calçada de uma rua central de São Paulo a caminho da Editora Abril, onde eu aportara pouco antes, e eis que pergunta qual seria meu quociente de inteligência. Declaro ignorar, de fato nunca me submeti a exames psicotécnicos. Sorriso cesáreo, pronuncia um número e esclarece: “É o meu”. “Satisfatório, imagino”, comento. Mais que isso, premia um ser humano a cada 25 milhões de semelhantes. O Brasil tinha então 70 milhões de habitantes, donde deduzo: “Só pode haver mais dois iguais a você”. “Pode – admite, plácido –, mas a estatística inclui todos os terráqueos, de sorte que eu poderia ser o único.”

Roberto Civita tende mesmo a se considerar único, um Moisés chamado a conduzir a Abril à terra prometida. Pronto a pôr em prática, assim como o herói bíblico dividia as águas, as artes da mídia nativa, inventar, omitir, mentir. Tropeço entre atônito e perplexo na última edição da revista Veja, a qual impavidamente afirma, entre outras peremptórias certezas, a autoria da derrubada de Fernando Collor da Presidência da República em 1992. Comete assim, entre a invenção e a mentira, o enésimo lance clássico do jornalismo nativo ao contar um episódio tão significativo da história do País.

Um ex-diretor da Veja, Mario Sergio Conti, escreveu um livro, Notícias do Planalto, para sustentar que Collor foi eleito pelos jornalistas. Não sei se Conti é mais um dos profissionais que no Brasil chamam o patrão de colega. Claro está, de todo modo, que a mídia naquela circunstância executou a vontade dos seus barões, a contarem com a obediência pronta e imediata dos sabujos. E à eleição de Collor Veja ofereceu uma contribuição determinante não menos do que a das Organizações Globo. Agora gabam-se pelo dramático desfecho do governo interrompido e omitem que lhes coube a criação do monstro.

Os leitores recordam certamente a expressão “caçador de marajás”. Pois nasceu no berço esplêndido da TV Globo e foi desfraldada à exaustão pela capitânia da esquadra abriliana. Ocorre que o naufrágio collorido não foi obra desta ou daquela, e sim do motorista Eriberto, que prestava serviço entre o gabinete presidencial do Planalto, o escritório de PC Farias e a Casa da Dinda. Localizado pela sucursal de IstoÉ em Brasília ao cabo de uma exaustiva investigação, trouxe as provas que a CPI não havia produzido. É a verdade factual, oposta à versão da última edição de Veja.

Lembro aquele sábado de 1992 em que IstoÉ foi às bancas com as revelações decisivas, de sorte a obrigar os jornalões, a começar pelo O Globo, a reproduzir as informações veiculadas pela semanal que então eu dirigia. A entrevista de Pedro Collor a Veja, do abril anterior, não bastaria para condenar o irmão presidente, tanto que a CPI se encaminhava para o fracasso. Pedro, de resto, nada de novo dissera na entrevista, a não ser a referência a certos, surpreendentes supositórios de cocaína. No mais, repetira, um ano e meio depois, uma reportagem de capa de IstoÉ.


Manual da arte midiática nativa, incluídas
mediocridade, parvoíce e ignorância
No fim de setembro de 1990, Bob Fernandes passou a acompanhar os movimentos de PC Farias por mais de um mês para desnudar, ao fim da tocaia, que o levou inclusive a hospedar-se no mesmo apart-hotel da eminência parda do governo, a culpa em cartório do presidente e seu preposto à corrupção. No dia do fechamento de IstoÉ, tarde de uma sexta-feira, fui visitado por um ex-colega, intermediário da tentativa de impedir a publicação. Veio ele melífluo, portador de um pedido partido de altos escalões (depois naquelas alturas identificaria a ministra Zélia, mais talhada para dançar bolero do que carregar a pasta da Economia), e eu prontamente apontei-lhe o caminho da rua. Nem por isso deixei de declinar a minha condição de empregado e admitir que meu patrão quem sabe pudesse ser seduzido com ouro, incenso e mirra. Não sei por que evoquei os magos na noite de Belém.

Logo, na prática, a sedução foi ensaiada em dólares, a bem da contemporaneidade, e Domingo Alzugaray, dono da Editora Três, recusou dignamente de 1 milhão a 5 milhões, até hoje ignoro o nível atingido pela derradeira oferta. Constatei depois, na costumeira troca de opiniões com meus botões, que os dólares teriam sido gastos inutilmente. A reportagem de capa caiu como pedra no pântano, não houve quem a repercutisse. Foi um daqueles momentos em que se recomenda o recurso à omissão.

Era cedo demais, teve de passar um ano e meio para que a mídia da casa-grande se convencesse de que o pedágio cobrado por Collor e PC era exorbitante. Apelou-se para o Pedro rebelde. Este episódio, desdobrado em pouco mais de dois anos de governo do “caçador de marajás”, é simbólico dos comportamentos dos nossos donos do poder, a partir da própria opção por Collor como anti-Lula. A tigrada em risco se dispõe a agarrar em fio desencapado.

O emblema é, porém, mais abrangente. Na sua patética edição desta semana Veja consegue demonstrar apenas que a lâmpada da capa é a enésima mentira. A série de textos pendurada no varal vejano estica-se na treva mais funda. Não se trata simplesmente de um manual de como o jornalismo pátrio atua, a inventar, omitir e mentir, mas também de mediocridade, parvoíce e ignorância. Em matéria, nos deparamos com uma obra-prima recheada por capítulos extraordinários na sua capacidade de suscitar tanto a hilaridade quanto o espanto.

Sem pretender hierarquizar na avaliação do ridículo e do grotesco, vale a afirmação de Veja que se apresenta como vítima do ataque conjunto da imprensa ligada aos setores radicais do PT e pela internet, entregue a robôs de militância petista. Programados pelos cientistas (aloprados?) do partido da presidenta e do ex-presidente? O Brasil, segundo a semanal da Abril, confunde-se com Rússia, Cuba e Venezuela, onde a liberdade de imprensa é violentamente cerceada, e com a China, de internet robotizada. Talvez a rapaziada de Veja tenha de racionar suas idas ao cinema para assistir à ficção científica estilo Matrix. Claríssima é, contudo, uma área que a Skuromatic não logra alcançar: a proposta de censura à internet, estampada com todas as letras por quem se apresenta como paladino da liberdade de expressão.

Passagem empolgante aquela em que Veja define Antonio Gramsci, notável pensador do século passado morto na cadeia fascista às vésperas da Segunda Guerra Mundial depois de 11 anos de cativeiro, autor de uma obra monumental intitulada Cadernos do Cárcere, que ele considerava como ensaio daquela a ser escrita em liberdade. A revista da Abril decreta: Gramsci é um terrorista vermelho, não menos que Lenin e Stalin. Pois é do conhecimento até do mundo mineral que Gramsci plantou as raízes da transformação do partidão italiano, enfim capaz de abjurar os dogmas marxista-leninistas e de se afastar do Kremlin para desaguar no eurocomunismo de Enrico Berlinguer, de pura, autêntica marca social-democrática. Permito-me propor à redação de Veja os nomes de um punhado de terroristas: Sócrates, Jesus Cristo, Montano, Lutero, Maquiavel, Pascal, Voltaire, Caravaggio, Daniel Defoe, Jonathan Swift, Garibaldi, Bolívar, Dostoievski, Espinoza. Há muitos outros, mas são estes que me ocorrem de chofre.

Não faltam, para fechar o círculo, as omissões. Por que não consta entre as façanhas vejanas a fantástica revelação das contas clandestinas no exterior de figurões variados do governo Lula, encabeçada por aquela do próprio presidente? E por que não se evoca a reportagem de sete anos atrás, sobre os dólares destinados a abastecer as burras petistas, chegados de Cuba em garrafas, com as mensagens dos náufragos? De rum, imaginariam vocês. Nada disso, de uísque. Nunca fica tão evidente, de limpidez ofuscante, que Veja é a revista do inventor da lâmpada Skuromatic.

Quando me demiti da direção da redação de Veja e de integrante do conselho editorial da Editora Abril, disse ao chairman of the board, Victor Civita: “Por nada deste mundo hoje trabalharia na Abril, entre outros motivos porque seu filho Roberto é um cretino”. O patrão retrucou, sem irritação evidente: “Não diga isso, diga ingênuo”. Dois dias antes, fevereiro de 1976, o filho me confessara, candidamente, que o então ministro da Justiça (Justiça?) Armando Falcão pedia a minha cabeça como condição do fim da censura e de um empréstimo de 50 milhões de dólares pela Caixa Econômica Federal.

É uma longa história, que já contei mais de uma vez. E eu me demiti, ao contrário do que escreveu Mario Sergio Conti, sabujo emérito, pronto a adotar a versão patronal, porque não queria um único, escasso centavo do inventor da lâmpada Skuromatic. Ou não seria lanterna, com a vantagem de ser carregada onde o usuário bem entenda?

P.S.: Não consigo entender por que Marco Antonio Barbosa, figura altamente confiável, não está entre os integrantes da Comissão da Verdade, alguns altamente inconfiáveis.

O enfermo - por Pedro Lyra

A Veja quer censurar a internet - por CartaCapital

A revista Veja tem medo do jogo da velha. O jogo da velha, no caso, são as hashtags, antecedidas pelo sinal #, para destacar vozes numa multidão de internautas – bobagens em alguns casos, mobilizações, em outros.

Para quem diz defender com a própria vida a liberdade de expressão, é preocupante. Nas 16 páginas desperdiçadas na edição do fim-de-semana em que tenta se defender, a semanal da editora Abril deixou claro: para ela, a liberdade de expressão não é um valor absoluto. Tem dono – ela e o reduzido grupo de meios de comunicação que se auto-qualificam de “imprensa livre”. Livre de quem? No caso da Veja, certamente eles não tratavam do bicheiro Carlos Cachoeira, espécie de sócio na elaboração de pautas da publicação.

Getúlio Vargas valia-se da expressão “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. A revista, em sua peça de realismo fantástico disfarçada de “reportagem”, a reformula: “aos amigos tudo (inclusive o direito de caluniar, manipular e distorcer), aos inimigos a censura. Ou não é isso, ao desferir um golpe contra as manifestações livres na rede e sugerir uma “governança” na internet, que os editores do semanário propõem? Eles tem urticária só de ouvir falar em um debate sobre a regulação dos meios de comunicação. Mas pimenta nos olhos dos outros…

Na própria peça de defesa, Veja distorce. Não foi a revista que derrubou Fernando Collor de Melo. É uma mistificação que só a ignorância permite perpetuar. A famosa entrevista do irmão do ex-presidente não teria resultado em nada. O que derrubou Collor foi o depoimento do motorista Eriberto França, personagem descoberto pela rival IstoÉ, na ocasião dirigida por Mino Carta.

Em termos de desonestidade intelectual, Veja se superou. Ao misturar aranhas, robôs e comunistas, a semanal de Roberto Civita produziu um conto de terror B. Nem se vivo fosse o falecido cineasta norte-americano Ed Wood, famoso por suas produções mambembes, toparia filmar um roteiro parecido. Além de tudo, a argumentação cheira a mofo, tem o tom dos anos da Guerra Fria. Quem tem medo de comunistas a esta altura? Nem na China.

PS: a lanterna na capa do semanário mostra outra coisa: calou fundo na editora o apelido Skuromatic, a lâmpada que provoca a escuridão ao meio-dia, dado a Roberto Civita por jornalistas da antiga redação de Veja.

Parsifal - por Jean Delville

Mulher de Gurgel confessa descumprimento de lei e ignora súmula do STF - por Wálter Fanganiello Maierovitch (Sem fronteiras - Terra Magazine)



Desde outubro de 1941 está em vigor o Código de Processo Penal (CPP).

Essa nossa lei processual penal estabelece, – ao Ministério Público e para casos de indiciados em inquérito policial que não estão presos–, o prazo de 15 dias para o início da ação penal pública incondicionada.

Ainda consoante o estabelecido no CPP, o representante do Ministério Público (Gurgel é o chefe do Ministério Público federal) pode, ao invés de propor a ação penal, (1) solicitar novas diligências policiais ou (2) pedir à autoridade judiciária competente o arquivamento dos autos de inquérito policial. Tudo isso, frise-se, no prazo de 15 dias.
Como até um rábula de porta de cadeia de periferia sabe, o procurador Gurgel recebeu os autos de inquérito referente à chamada operação Vegas no ano de 2009. Ele só tirou da gaveta o referido inquérito em 2012, depois de o jornal O Globo divulgar o conteúdo de interceptações telefônicas a envolver a dupla Cachoeira-Demóstenes e dele ser pressionado por parlamentares que leram o informado no jornal.

Contado o prazo de 15 dias com base no calendário Gregoriano (elaborado em 24 de fevereiro de 1582 e vigorante no Brasil), o prazo de Gurgel, referentemente ao inquérito Vegas, não foi cumprido.

Agora, em maio de 2012, a esposa de Gurgel, subprocuradora Cláudia Sampaio, resolve explicar em nome do maridão Gurgel. Modestamente, se auto-elogia, ao afirmar que se tivesse arquivado o inquérito tudo estaria apagado e não teríamos Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Grande e excelentíssima Cláudia Sampaio!!!!!!

Graças à sua atuação, e não a do maridão Gurgel, a impunidade não existirá. Diante disso, nem vamos lembrar Camões e o seu alerta de que “elogio em boca própria é vitupério”. Na verdade, Cláudia Sampaio deu uma banana para o CPP e até obteve o apoio de Demóstenes, que aprovou a recondução de Gurgel: em interceptação, Demóstenes diz a Cachoeira que estava a bater em Gurgel, e se opor à sua recondução, para pressioná-lo a não mexer no inquérito Vegas.

Diante dessa afirmação de ter evitado a impunidade, não se sabe em que mundo vive a subprocuradora Cláudia Sampaio, embora dê expediente no gabinete de Gurgel.

Cláudia Sampaio esquece de uma importante súmula do Supremo Tribunal Federal. Faz tabula rasa, esquecimento, da súmula que admite a reabertura de um inquérito policial com base em fato novo.

Às pamparras, existem fatos novos na operação Monte Carlos, que resultou em inquérito policial e referente a ilegalidade por exploração de jogos eletrônicos de azar, lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico de influência. Tudo a envolver, dentre outros, o senador Demóstenes, dois deputados, três governadores e a empresa construtora Delta.

Assim, a subprocuradora Cláudia Sampaio erra ao afirmar, sem corar a face, que: “Se tivesse arquivado em 2009, a investigação morreria ali e não teria dado em nada”.

Será que Cláudia Sampaio já foi informada da Operação Monte Carlo, de 2012? Como não dar em nada? E a súmula que admite o desarquivamento?

Pano rápido. Alguns senadores poderiam, diante da gravidade do caso e da recusa de Gurgel em comparecer à CPMI, de pensar no artigo 52, XI, da nossa Constituição republicana. Nossa Constituição permite que o Senado casse o mandato de procurador-geral de Gurgel. Para tanto, a Constituição exige votação secreta e maioria absoluta de senadores.

Fotografia - por Perly Freeman (Inspiration Hut)

O capital se faz em casa - por Ciro Gomes (CartaCapital)


Já comentei aqui que uma das premissas do êxito civilizatório é a existência de altos níveis domésticos de poupança vinculada ao investimento.

O que não devemos deixar de enfatizar, entretanto, é que, ao contrario da intoxicação ideológica ainda disseminada entre nós, a taxa interna de poupança das nações não é conseqüência fatalista das forças do acaso. É, claramente, conseqüência de arranjos institucionais que a POLÍTICA, e só ela, é capaz de fazer – repetirei.

Duas negativas para entrarmos numa proposta de como o Brasil poderia sair dos atuais níveis precários de investimento (menos de 19% do PIB) para taxas mais altas no tempo; mas, pelo menos, e com urgência, para algo ao redor de 23% ou 24% do PIB, os quais, imagino, lastreariam uma taxa sustentável de crescimento acima dos críticos 5 % necessários para cobrir os ganhos de produtividade, e incorporar os ainda cerca de um milhão e meio de jovens que, por ano, chegam ao mercado de trabalho procurando seu ansiado primeiro emprego.

A importantíssima e perigosa (para ela) cruzada da presidenta Dilma Rousseff contra a usura e o rentismo tem que ser apoiada. Por uma questão muito simples: num país onde a taxa de juros que o governo paga pela manutenção de excedentes financeiros é maior que a rentabilidade média dos negócios, a economia tende a parar.

Óbvio ululante, pois quem tem dinheiro prefere especular, sem produzir, porque ganha mais e quem não tem dinheiro – caso da maioria esmagadora de nossos empreendedores – não pode tomar emprestado pra produzir, e ganhar menos que os juros a pagar ao banco. Dedicarei um espaço destes a esta conjuntura, proximamente.

Por isto será referencia para a história se este momento (melhor, esta tendência) for pra valer, como creio que possa ser.

A primeira consequência será uma migração de ativos da agiotagem para negócios mais rentáveis.

A classe média vai pensar agora em usar sua pequena poupança para comprar imóveis e, quem sabe no futuro, passar a crer em capitalização de empresas, por exemplo. Isto é historicamente muito bom, mas ainda não é a construção de uma cultura de poupança e  investimento  para o País.

A outra negativa faço com muito cuidado. E deriva de uma de muitas conversas com o grande brasileiro e patriota professor Carlos Lessa. Em tempos de crise e estagnação econômica o governo deveria pagar aos trabalhadores para abrirem buracos e, ato contínuo, pagar para eles taparem os buracos; em tradução grosseira, Keynes demonstraria nesta frase, a ele atribuída, o fato de que quem promove desenvolvimento é o gasto, o investimento – e não a poupança, emenda cheio de sabedoria Carlos Lessa. Isto foi dramaticamente verdadeiro na experiência de Roosevelt no New Deal. E seria muito conveniente no Japão e na Europa de hoje.

Mas a experiência nacional desenvolvimentista brasileira, lastreada na fundação do endividamento brasileiro (ou seja, na tentativa de acelerar o desenvolvimento do País sem a construção de uma institucionalidade que assentasse nossa sorte em nosso próprio capital) deu no que deu: é verdade que temos a 15ª economia industrial do mundo, mas também temos uma das piores distribuições de renda e um passivo externo que, de tempos em tempos nos prega grandes sustos (temo estarmos, a médio prazo, nos aproximando de outro).

Não sendo eu um economista, posso ser herege. O capital dos outros é tão bem-vindo quanto menos dele necessitarmos. A finança internacional funciona igual dono de banco: quanto menos dele precisamos, mais solícitos são, quanto mais dele precisamos… está em reunião, não pode nos atender.

Assim, ter lastro próprio em alto nível doméstico de poupança é condição sine qua non para participarmos de forma sustentável de um naco da poupança financeira internacional.

Sem se falar da absoluta impossibilidade ainda (e, creio, por muito tempo) de praticarmos déficits orçamentários, mesmo com a melhor intenção de acelerarmos, baseado neles, nosso desenvolvimento. Peculiaridades de nossa história.

Estou que nem Padre Vieira no início de seus belíssimos e intermináveis sermões: desculpem, não posso ser breve.

Feitas as negativas, pretendo propor à discussão algumas pistas para que pudéssemos elevar nossa taxa interna de poupança.

E tenho pra mim que o centro desta institucionalidade nova tem a ver com a forma como organizamos nosso modelo tributário, com a forma com que tratamos nossa lógica previdenciária, com o modo como organizamos nosso mercado de capitais, com o formato tosco de nossa contabilidade pública, e, em última análise, com a cultura de parcimônia e austeridade que nos falta amplamente, na vida privada e, especialmente, na vida pública.

Do mais simples, embora nada trivial, ao mais complexo.

A contabilidade pública. À falta de qualquer planejamento, de curto prazo que seja, a conta pública brasileira é feita pelo ano fiscal que coincide com o ano civil. E nos obrigamos como dogma de fé – depois das sucessivas maluquices do período de Fernando Henrique – a produzir ex ante, um superávit primário calculado pela simples diferença entre o que arrecada o governo e o que gasta, exceto serviço da dívida. Ponto.

É hora já de corrigirmos esta absoluta falta de senso. Um exemplo melhor que mil palavras: manter preventivamente um quilômetro de estrada custa de 10 a 15 mil dólares por ano. Não o fazemos por “economia”. Aí deixamos as estradas federais se destruírem, matar pessoas, encarecer por 4 vezes o custo do frete rodoviário do País em comparação com o concorrente internacional, para reconstruir a mesma estrada, quatro anos depois, por 200 mil dólares o quilômetro – ou seja, economizamos na melhor hipótese, 60 mil dólares para nos obrigarmos a gastar 200 mil dólares. Que economia é esta?

Foi assim no apagão do setor elétrico, é assim na contabilidade dos juros (o maior gasto corrente do País).

Com a paciência de meus queridos leitores, vamos continuar nesta tecla pelos próximos textos, se uma conjuntura comovente não nos interromper.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Homem de Ferro simbiótico - por Zulkarnaen Hasan Basri (Coolvibe)


Comentário
Tem gente que dá uma moral danada pro Homem de Ferro... Não é lá meu herói favorito... Mas fica aqui o registro, pois a imagem é muito bem feita.

Oposição tupiniquim

O blog de humor G17 publicou a seguinte paródia:

Dilma pede e Banco Central coloca em circulação notas com a frase "Lula seja louvado"
Banco Central colocou em circulação nesta segunda-feira (7) notas de real com a frase "Lula seja louvado". De acordo com o BC, a mudança foi um pedido da Presidente Dilma Rousseff, que quis homenagear o ex-presidente Lula.
Segundo informações da Assessoria de Dilma, no Palácio do Planalto, a frase "Deus seja louvado" estava provocando confusão e atrito entre religiosos e Ateus. "Nem Deus, nem Zeus, nem Goku nem Galileu, coloquem o nome do Lula", teria dito a Presidente Dilma, para encerrar a confusão.
A mudança nas cédulas de real, com a frase "Lula seja louvado" está sendo feita aos poucos pelo Banco Central. A expectativa do BC é que, até o final do ano, todas as notas estejam com o nome de Lula.

Pois então, o impávido colosso deputado ex-comunista (terá algum dia sido, de fato?) Roberto Freire, consegue realizar a proeza de acreditar na matéria, a critica e a republica em seu twitter:

RT @freire_roberto Isso é uma ignomínia! Dilma pede e B.C (sic) coloca em circulação notas com a frase "Lula seja louvado "http://www.g17.com.br/noticia/politica/dilma-pede-e-banco-central-coloca-em-circulacao-notas-com-a-frase-lula-seja-louvado.html

Bem, realmente não há como negar que a oposição brasileira é mais do que lamentável. Supô-la ruim seria um elogio, a nossa oposição, infelizmente, é uma tragédia. Esta trupe de partidos enquanto era governo foi lamentável, e conseguiu a proeza de piorar enquanto oposição.
Vejamos, para nos atermos aos próceres:

Arthur Virgílio Neto, Heráclito Fortes, Tasso Jereissati, Marco Maciel, César Maia, Mão Santa, e outros mais, que tanto e tanto espaço tiveram na mídia para atacar o governo (chegando um destes a cometer o despautério de ameaçar fisicamente o presidente da república – e, cúmulo da hipocrisia, muitos analistas ainda dizendo que a oposição pela oposição quem fazia era o PT), sequer conseguiram se reeleger, portanto, me escusarei de comentar sobre eles – o eleitor já o fez.

Roberto Freire é mais um dos exemplos crassos do que a oposição chama de “aparelhamento da máquina pública”, que é a nomeação de apaniguados para cargos no governo. Bob Freire sempre conta com uma boquinha em governos tucanos. Como se não bastasse a falta de coerência ideológica histórica, de abandono de seus ideais em nome de benesses financeiras (não dava para “aparelhar” a máquina publica tucana sendo comunista), ainda consegue a proeza de se dizer socialista enquanto se alia ao DEM, representante-mor do fascismo brasileiro. Vez ou outra manda uma pérola como a do twitter... Já escrevi que poucas pessoas são tão nocivas a esquerda quanto os ex-comunistas. Bem, neste caso, nem tanto, pois sua incapacidade intelectual o impede de ocasionar maiores danos.

José Agripino Maia, prefeito “biônico” nomeado pela ditadura (aí já começamos a ver a estatura moral do sujeito), responde a diversas acusações de corrupção – desde os primórdios de sua vida eleitoral, no escândalo “rabo-de-palha”. A revista Caros Amigos fez uma bela reportagem sobre a vida pregressa deste prócer defensor da democracia nativa. Atualmente é presidente do DEM, partido que se desidrata a olhos vistos.

José Serra (PSDB), candidato a prefeitura de São Paulo, tem como pupilo na própria prefeitura seu filhote Gilberto Kassab (PSD) que, muito mais preocupado com a criação de partido político do que em administrar a cidade (também convenhamos, ficar no navio “DEM” que tá afundando a olhos vistos é uma covardia), faz um péssimo mandato – a despeito de todo o apoio que a mídia paulista lhe dá, sua administração é muito mau avaliada pela população.
Nas eleições municipais que se aproximam poderemos ver um fato curioso: conseguirá o Almirante do Tietê, José Serra, provar que a administração Kassab é muito boa (já que grande parte do secretariado foi nomeado por ele), ou, tentará se desvencilhar do desmando administrativo que São Paulo sofre – e pelo qual é co-responsável?
Como se não bastasse, já sabemos muito do ex-futuro presidente Serra: defensor de políticas econômicas desenvolvimentistas para fora, quando no governo é o que de mais neoliberal há – defensor e feitor de privatizações, autor, como ministro do planejamento do PROER (uma forma bem singular de dar dinheiro a banqueiros), por exemplo. Serra chegou ao cúmulo de aumentar a carga tributária no meio da crise de 2009, aproveitando de subsídio que o governo federal implementava justamente par aplacar os efeitos da crise. Isto é que é desenvolvimentista...
O Barão de Pindamonhangaba é um notório feitor de dossiês contra adversários – mesmo que do próprio partido – além de ser o receptáculo de grampos, oriundos de seu capitão-do-mato Marcelo Itagiba (personagem bem retratado no filme tropa de elite 2). Personagem detestado mesmo dentro da direita, Serra não tem pudores em ligar para donos de jornais pedindo a cabeça de jornalistas que lhe são desfavoráveis (isentos). Na última campanha eleitoral conseguiu feitos incríveis: trazer um conservadorismo religioso inaudito nas eleições presidenciais brasileiras, inventar o escândalo da “bolinha de papel” (mais ridículo que a histórica edição manipulada do debate de Collor X Lula em 1989), dentre outros feitos menores – como o de se postar como grande administrador e, simultaneamente passar anos (eu disse anos) sem dirigir palavra a secretário de estado que era seu subordinado direto.

Por fim, Aécio Neves, também conhecido como Aécio Never. Nos três primeiros meses como governador mineiro foi considerado o terceiro pior governador do Brasil em pesquisa realizada à época. Aí resolveu reagir. Como não veste a camisa de algoz como Serra, deixou para a irmã, Andréia Neves, fazer o serviço sujo e caçar os jornalistas isentos. A imprensa isenta mineira foi devastada, quem tinha comportamento isento foi demitido, e Aécio passou a reinar na paz dos matadouros abandonados. Sempre foi mais preocupado com a vida noturna do Rio de Janeiro do que em governar Minas, mas isto importa menos, claro.
Como se não bastasse o pouco apreço a verdadeira democracia na imprensa, Aécio ainda consegue, num país em que dezenas de milhares de pessoas morrem anualmente em acidentes de trânsito (sendo em vários anos a primeira causa de mortes no Brasil) dar o péssimo exemplo de beber e ir dirigir – e, por isso, se recusar a fazer o teste do bafômetro. Como é consabido, Aécio não passa de um playboy (chegando a ser acusado por um ghost-writer de José Serra, no Estadão, até de ser cheirador de pó), mais preocupado em curtir a vida do que em exercer seu papel de homem público. Sobre Aécio ainda pesam suspeitas a respeito de uma rádio muito estranha, com patrimônio desproporcional aos seus rendimentos.

Este é o resumo da nata da oposição - imagine o "baixo clero".
O que me deixa chateado, no fim das contas, não são só as denúncias de corrupção que pesam contra seus membros, o golpismo, ou a desqualificação da política. O que acredito ser o pior para o país é a falta de formulação. A oposição não pensa o país, não reflete, não arquiteta, em resumo, não faz nada, exceto se opor, mas não se opor ancorada em ideias - o que seria salutar -, muito ao contrário. Se opõe baseada num moralismo fútil e, na grande maioria das vezes hipócrita, como o exemplo notório de Demóstenes Torres.

Como o governo tem que lidar com as urgências, com as fogueiras diárias, várias vezes falta uma visão de médio e longo prazo em sua atuação (a despeito do ministério criado no governo Lula justamente para tratar disto). A oposição poderia contribuir com o país criticando, propondo, formulando, debatendo, apontando as melhorias que podem ser feitas...
Porém, todos os avanços perpetrados pelo governo Lula e Dilma se deram apesar da oposição e não por causa dela.
Vejamos: aumento drástico das políticas sociais e educacionais, e do salário mínimo, marcas notórias do governo Lula, não ocorreram sob pressão da oposição, ao contrário. As políticas sociais foram constantemente combatidas, sob o pretexto fajuto do aumento dos gastos públicos (parece até que este é o maior problema do Brasil...). O próprio programa bolsa-família, um bálsamo para dezenas de milhões de pessoas, foi tratado seguidamente como eleitoreiro, bolsa-esmola, como inútil, estimulador da preguiça, etc. Supostamente, não resolveria o problema da pobreza no país... entretanto, a evolução da renda dos mais pobres, as mais de 40 milhões de pessoas que saíram da linha da pobreza, provam exatamente o contrário. A oposição estava errada, num tema em que não se pode errar, pois se trata da fome, da vida no que há de mais elementar para as pessoas.
Sobre as políticas educacionais (Pró-uni, Reuni, Fundeb, etc.), não só as boas iniciativas não contaram com apoio da oposição, como inúmeras vezes até entraram na justiça para combatê-las.
Já no governo Dilma, ideias como a do fundo de pensão para funcionários públicos, ou a nova taxa de remuneração da poupança – que permitirá que a taxa de juros caia para níveis civilizados – ocorrem sempre apesar da oposição. A própria alteração na remuneração da poupança, por exemplo, algo fundamental para o futuro do país, não só teve a oposição de seres como o próprio Roberto Freire: ele ainda foi a televisão insinuar que o governo tomaria o dinheiro dos poupadores, como Collor. É muita irresponsabilidade, muita falta de compreensão da própria grandeza do Brasil e do momento histórico que vivemos.
Infelizmente, creio que grande parte desta pequenez e desta irresponsabilidade é vitaminada pela imprensa marrom, que estimula este tipo de comportamento udenista, pseudo-moralista (moralismo, claro, com a seletividade de sempre: denúncias como a da privataria tucana, a operação castelo de areia, a lista de Furnas, o caso Alston, ou contra Daniel Dantas são claramente silenciadas).

Antes de finalizar, pra não dizer que a oposição não formula nada: propuseram as privatizações dos bancos públicos – especialmente o BNDES. Desta forma, segundo alguns de seus próceres, os juros cairiam (?).
É uma lástima, não é mesmo?

Pintura - Vladimir Kobassov

Infra-estrutura brasileira

O trecho abaixo foi retirado do blog do Planalto, de entrevista com a presidente Dilma:

 “Meu governo tem absoluta convicção da importância das ferrovias. Por isso, temos, hoje, mais de 3 mil km de ferrovias em construção. Estamos em um período de retomada dos investimentos no setor porque queremos, finalmente, promover uma interligação ferroviária entre todas as regiões do país. Além dos trechos em obras, foram concluídos projetos para mais de 3,7 mil km e estão em fase de elaboração estudos e projetos de ferrovias que somam mais 3,5 mil km. Em 17 anos, entre 1986 e 2002, foram construídos apenas 215 km de linhas férreas. Nos últimos nove anos, entregamos 753 km. Com a ampliação da malha que estamos promovendo, haverá uma participação muito mais efetiva das ferrovias na matriz de transportes do Brasil”, disse a presidenta.

A constatação de que, em 17 anos (entre 1986 e 2002) foram construídos somente 215 km de linhas férreas no Brasil é realmente de se envergonhar - e é só mais uma das demonstrações cristalinas de como fomos pessimamente administrados no período.
Lembro-me que no final do lúgubre governo FHC ele ainda tinha a audácia de desperdiçar uma cachoeira de milhões de reais do povo brasileiro anunciando na (também lúgubre) revista Veja, os fortes investimentos na malha ferroviária feitos pelo seu governo.
Que lástima.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Loretta - por Vitaly Alexius (Coolvibe)

A reportagem do domingo espetacular sobre cachoeira - blog do Nassif - R7


Fotografias misteriosas - por Martin Marcisovsky (Inspiration Hut)

O esquema Cachoeira - Quem vê cara… - por Wálter Maierovitch (CartaCapital)

Há muitos anos assisti ao filme Buonanotte… avvocato! (em português, também com este nome). Nele, o saudoso Alberto Sordi interpreta o papel de um advogado de boa dialética, mas incapaz, em processos criminais com acusações e provas frágeis, de absolver os seus clientes.

Numa sustentação oral, o protagonista expõe aos julgadores uma tese defensiva: “Excelentíssimos juízes, atentem para a cara do réu. O meu cliente, vejam, tem a cara de um ladrão. Ninguém com essa cara de ladrão teria condições de roubar. Para roubar é necessária uma cara honesta, insuspeita. Por isso, peço a absolvição porque ter cara de ladrão não é crime”.

Nos inquéritos policiais decorrentes das operações Vegas e Monte Carlo, nenhum dos suspeitos de ilicitudes tem cara de ladrão, tomado o termo, frise-se, na acepção popular de quem aufere indevidas vantagens econômico-financeiras em prejuízo da sociedade.

Os inculpados exalam, porém, odores de ilicitudes e temos até três governadores envolvidos: Marconi Perillo (PSDB-Goiás), Agnelo Queiroz (PT-DF) e Sérgio Cabral (PMDB-Rio). Perillo chegou a dizer que recebeu Cachoeira apenas uma vez e em audiência formal. Depois dessa afirmação e de dispensar a secretária particular ligada a Cachoeira, apareceu uma ligação telefônica do governador a cumprimentá-lo pelo natalício e a protestar por não haver sido convidado para a festa. Queiroz está embananado com escutas telefônicas clandestinas e Cabral é suspeito de privilegiar a Delta Construções, inclusive com dispensa de licitações.

O senador Demóstenes Torres, pivô do escândalo, possuía cara de honesto e se apresentava, no Parlamento e em entrevistas, em panos de Varão de Plutarco. Na realidade e conforme revelado nas interceptações telefônicas judicialmente autorizadas, atuava como partícipe de uma potente e parasitária organização criminosa.

A primeira desconfiança contra Torres surgiu quando ele afirmou ter sido Gilmar Mendes grampeado e confirmou a interlocução mantida com ele, cujo teor fora antes publicado pela revista Veja. Como se sabe, não houve grampo, mas, segundo indicativos com lastro de suficiência, armação para derrubar o delegado Paulo Lacerda, que apoiou as apurações contra o banqueiro Daniel Dantas.

Outra desconfiança derivou da Operação Vegas, em que o senador é revelado como auxiliar de Cachoeira. Esse inquérito, apesar da gravidade, foi para o “frezzer” do gabinete do procurador Roberto Gurgel, que também não tem cara de ladrão e deveria dar-se por impedido para atuar nos autos.

Torres atacou o tratamento privilegiado dado por Gurgel no escândalo a envolver o então ministro Antonio Palocci, que foi um dos promotores da recondução de Gurgel ao segundo mandato de procurador-geral da República e, como decorrência, titular exclusivo de ações criminais contra detentores dessa excrescência brasileira denominada foro privilegiado. O senador, segundo conversa com Cachoeira, atacava o processo de recondução de Gurgel para que este, pressionado, mantivesse no frezzer o apurado pela Vegas. Num certo momento, e para surpresa geral, o senador passou a ser favorável à recondução de Gurgel e o inquérito permaneceu no congelador. Aliás, só saiu de lá por pressão de parlamentares.

Gurgel, para justificar a geladeira, fez o papel desempenhado por Sordi, ou seja, sustentou o insustentável: declarou aguardar a conclusão da Operação Monte Carlo, que começou em 2010. Só esqueceu o fato de a Operação Vegas, iniciada em 2007, haver findado em 2009, bem antes do início da Monte Carlo. Assim, Gurgel deveria dar-se por impedido, a usar a justificativa do motivo de foro íntimo.

Além de não declarar impedimento, o procurador aproveita da circunstância de estar à frente da ação penal para não comparecer à CPI. Sua alegação é de não poder ser ao mesmo tempo testemunha e responsável pela ação penal no Supremo Tribunal Federal.

Quanto a Cachoeira, está patente que não faz o tipo ultrapassado de comandante da velha Máfia, a disparar e matar para mostrar força e difundir o medo. Ele é adepto do método moderno, que consiste em misturar dinheiro de origem ilícita com capitais de empresários ávidos por obras e concessões de serviços públicos. E de destruir reputações via mídia.

Sobre as correlações com Cachoeira, a defesa do presidente da Delta  fez colocação que caberia no filme estrelado por Sordi. Para Cavendish, o diretor de sua empresa Cláudio Abreu atuou por conta própria ao estabelecer vínculos com o contraventor. Cavendish se esqueceu de dizer que a atuação de Abreu resultou em vultosos lucros para a Delta. Não consta que esses resultados monetários tenham sido estornados da contabilidade da empresa e devolvidos ao funcionário. De diretor de prestígio, Abreu assumiu o papel de costas largas.

Não se sabe como terminará a CPI. Sua conclusão não vincula o Ministério Público, mais especificamente Gurgel, que, por dever explicações, tornou-se inconfiável.

Fotografia - por Francesco Gola (Inspiration Hut)

Os coiteiros de "Veja" - Hora do Povo

Alguns jornais publicaram que o deputado Miro Teixeira irá propor, com base no artigo 207 do Código de Processo Penal, que jornalistas – por exemplo, o parceiro de Carlos Cachoeira, Policarpo Jr., da "Veja" - não pudessem ser convocados à CPMI para depor. Segundo o deputado, o citado dispositivo legal proibiria "o depoimento de testemunha que por ofício tenha de manter sigilo".

Se for verdade a notícia, trata-se de um engano do deputado. As razões para convocar Policarpo Jr. nada têm a ver com o ofício de jornalista. Pelo contrário, o problema é exatamente que ele usou o suposto ofício de jornalista para atividades estranhas à profissão, isto é, usou-a como fachada para estabelecer conluio com um criminoso. Portanto, não é por suas atividades jornalísticas, mas por suas atividades criminais, que Policarpo Jr. deve ser chamado a depor.

Seria uma original doutrina jurídica a que estabelecesse que jornalistas podem cometer crimes e não depor porque têm de manter sigilo. Muito pelo contrário, a lei não apenas veda a qualquer cidadão – inclusive a supostos jornalistas – a cumplicidade com o crime, como também veda aos jornalistas cometer eles mesmos o crime, inclusive nas suas funções: por exemplo, falsificar ou inventar fatos para difamar pessoas ou golpear instituições, não é jornalismo, mas crime. Pior ainda quando, para isso, se recorre aos préstimos de um bandido – e durante oito anos se acoberta esse bandido.

Segundo: o artigo 207 do Código de Processo Penal diz exatamente o seguinte: "São proibidas de depor as pessoas que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho".

Entre os ofícios que a lei reconhece que devem guardar segredo, não está, certamente, o de parceiro de um criminoso. Nesse caso, inclusive, a "parte interessada" está na cadeia. Não há segredo ou sigilo a preservar. As provas do inquérito da Polícia Federal são públicas. Policarpo Jr. não vai depor sobre nenhum segredo, mas, exatamente, sobre o que já deixou de ser segredo. Logo, o mencionado artigo do Código de Processo Penal não se aplica a ele.

Terceiro, Policarpo Jr. já depôs, em virtude de uma CPI, no Conselho de Ética da Câmara, quando o então deputado André Luiz foi acusado de extorsão ao sr. Carlos Cachoeira no caso da Loterj. No dia 22 de fevereiro de 2005, Policarpo Jr. depôs contra André Luiz, portanto, a favor de Carlos Cachoeira, e não arguiu nem pretextou sigilo, apesar das ligações ocultas que mantinha com o polvo do Centro-Oeste.

Portanto, a argumentação do deputado Miro Teixeira equivale a estabelecer que Policarpo Jr. só pode depor, como já fez, para defender Cachoeira ou atacar seus desafetos. Não seja por isso. Estamos ansiosos para ver Policarpo Jr. defender Cachoeira na CPMI ou atacar os inimigos do bicheiro. O que é mais uma razão para chamá-lo à CPMI. O deputado deveria perceber que dar um salto ornamental nessa fossa não vale algumas linhas na "Veja", mais suja do que pau de galinheiro, ou seja lá onde for. Até porque essa malta é muito ingrata e não vai ser ela que lhe proporcionará os votos que precisa, e que já estão escassos. O deputado terá de contar com os eleitores – ainda por cima, os do Rio de Janeiro.

Comentário
De fato, este Miro Teixeira não passa de um puxa-saco que em todas as suas ações visa exclusivamente garantir fama para seu mandato, de modo a garantir suas reeleições. O sujeito não agrega nada. Talvez o único momento em que tenha se posicionado contra a imprensa marrom foi quando defendeu... o pródigo aumento salarial para os deputados e senadores.
Aí o bolso falou mais alto que o a conveniência que lhe é habitual... Afinal, pra que se reeleger se não é pra encher o bolso de grana, não é, Miro Teixeira? Não ia adiantar ficar puxaco da imprensa para manter o bolso vazio...

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Lua particular - Leonid Tishkov

Presidência francesa

Entre o ruim e o muito ruim, a França escolheu o ruim, François Hollande, do partido socialista (?).
Torço - com precárias esperanças que isto, de fato, ocorra - para que Hollande seja um estadista - o que anda faltando demasiadamente na Europa, aliás.

A pousada na floresta - Ivan Ivanovitch Chichkine

Dilma e o porrete americano – por Paulo Moreira Leite (Época)

É possível que nem todos os leitores já tenham percebido mas a pauta principal dos repórteres que cobrem uma viagem presidencial ao exterior consiste em procurar gafes de nossos chefes de Estado.

A ideia é que os assuntos sérios e graves são uma chatice que não interessa a ninguém – visão que nem sempre é verdadeira mas tem sua base na realidade – e que as gafes são assunto com leitura garantida.

É assim desde os tempos da ditadura militar. Naquele tempo as gafes eram até uma forma de publicar uma notícia negativa sobre um regime que governava com apoio da censura prévia.

Os arroubos de vaidade da primeira-dama Dulce Figueiredo eram um prato tão saboroso que, num esforço para evitar notícias constrangedoras, o SNI cassou o passaporte do cabeleireiro que costumava acompanhá-la em viagens, alimentando os jornalistas de fofocas e episódios divertidos, além de dar um aspecto fútil às visitas.

A pauta prosseguiu nos governos civis e é possível que nenhum presidente tenha sido tratado com tantas ironias como José Sarney, que, com certo pedantismo, costumava ser ironizado por causa de seu portunhol.

No início, o monoglota Lula sofreu com comparações negativas, que procuravam exaltar o poliglota FHC. Depois se viu que mesmo em português Lula conseguia um respeito que nenhum antecessor obteve antes dele.

E Dilma?

Dilma fez uma viagem aos EUA onde não ocorreu nenhuma gafe. Isso explica a pouca atenção que recebeu por parte da maioria de nossos jornais e revistas.

É um erro, já que a visita teve pelo menos um aspecto importante. A presidente tomou iniciativas importantíssimas na área de educação, dando sequência a seu projeto de enviar milhares de estudantes para cursos de pós-graduação nas melhores universidades do planeta.

Mas foi uma viagem morna, que reflete uma realidade que nossos observadores não querem ou não conseguem admitir.

“Todo mundo queria ver Dilma menos Barack Obama,” escreveu o jornalista Jason Farago, correspondente do Guardian na capital americana, num comentário que até hoje repercute na internet.

A tese de Farago é que a viagem serviu para mostrar um vazio da diplomacia americana, que não estava preparada para a emergência de um país que já não se comporta como uma nação subalterna quando tem assuntos a tratar com Washington.

Num esforço para avaliar a visita por um ângulo menos banal, Farago descreve o esforço de várias autoridades americanas para ouvir a presidente, conhecer suas ideias e ter notícias do Brasil.

São sinais de uma nova realidade mundial, escreve, lembrando já se tornou até ridículo falar em países emergentes, considerando que são nações que já emergiram – enquanto as velhas potências ameaçam submergir em sua própria crise.

Avaliando o comportamento de Obama, Farago lembra que há um descompasso entre a realidade do mundo de 2012 e a doutrina imperial americana, que pregava que a América era um quintal dos Estados Unidos, noção que, com poucas nuances, até hoje alimenta a diplomacia de Washington.

“Nós fazíamos o que queríamos e dizíamos aos outros para não se intrometerem. A ideia de que um país latino-americano poderia servir de modelo está além de nossa compreensão. Agora, pela primeira vez, uma segunda grande potência está crescendo no pedaço, mas entre nós, gringos, os velhos hábitos do grande porrete custam a morrer.”

A conclusão não poderia ser mais realista: a grande lição da viagem de Dilma foi mostrar incapacidade do governo americano estabelecer uma política externa de acordo com os tempos atuais.

O comentário de Farago tem um mérito adicional. A postura de muitos analistas diplomáticos brasileiros é tão subordinada aos Estados Unidos que eles não conseguem sequer admitir que Washington possa cometer erros em suas análises e desvios de conduta. Se a viagem foi morna, a culpa é do governo brasileiro. Se foi uma tragédia, mais ainda.

São visões que  continuam celebrando os compromissos democráticos dos EUA embora eles tenham patrocinado o grande ciclo de ditaduras militares do continente dos anos 60 a 80. Gostam de elogiar a postura pelo livre comércio sem levar em conta que a economia americana se apóia num protecionismo amplo e vigoroso, dirigido em importações que podem concorrer com seus produtores internos. Nem o bloqueio a Cuba é condenado com a devida veemência. Não se perde uma única oportunidade para cobrar o velho alinhamento automático, sempre que surge algum arranhão no continente.

A partir de eufemismos como “investidores externos,” “imagem no exterior” e outros, as referência dessas análises é sempre uma pergunta: como os EUA vão reagir? Vamos sofrer retaliações?

Sempre que há um desentendimento entre as partes, ou mesmo um conflito, a opinião nunca se modifica. A razão está sempre do lado de lá da fronteira.

Como Obama, muitos observadores não conseguem enxergar uma mudança na realidade.

É por isso que passaram os primeiros meses do governo Dilma anunciando uma grande modificação em nossa política externa. Achavam que ela viria a partir de uma postura menos nacionalista da presidente.

A tese é que, livre do sapo barbudo e de seu ministro Celso Amorim, o Itamaraty iria reconstruir a velha e boa amizade preferencial americana, de acordo com a máxima deixada por um dos civis do regime militar: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.”

A viagem de Dilma mostrou que Obama não tem o que oferecer, não pensou nisso e não consegue entender que isso é necessário.

Na mentalidade do porrete, do outro lado da mesma só pode sentar-se um vira-lata.

Concorda?

sábado, 5 de maio de 2012

Insindiosa discrepância - por Vitaly Alexius (Coolvibe)

O professor e o doutor - por José Roberto de Toledo (Vox Publica – blogs Estadão)

Doutor e Professor cresceram juntos, não na vida, mas no poder. Trajetórias sincronizadas: a cada favor trocado, um passo adiante e um degrau acima. De sua simbiose política surgem negócios, nomeações, sentenças, manchetes, facilidades. Doutor é a face pública da dupla, reluz nos palanques, tonitrua aos microfones. Professor articula nos bastidores. Deveria ser opaco, pois brilhar nas profundezas onde opera atrai atenção indesejada. Mas a vaidade nem sempre é controlável.

Para entrosar o jogo, falam-se várias vezes ao dia, encontram-se sempre que possível. Ao telefone, Professor só chama o parceiro de doutor. Doutor retribui, íntimo: “Bom dia, professor. Tranquilo aí? Sossegado?”. Ler os diálogos de Doutor e Professor no inquérito em que se transformou sua parceria é uma aula sobre como funciona parte do Brasil. A de cima.

Aprende-se como usar o Estado para agradar o esposo, resolver problemas familiares ou alavancar grandes oportunidades de investimento. Do trivial completo ao banquete de verbas públicas, o cardápio satisfaz magros, gordinhos e ex-gordos.

Doutor quer comprar uma mesa na Argentina, presente para a mulher. Custa-lhe mais do que ganha em um mês como senador. Ao amigo, não reclama do preço, mas da alfândega: “Até que não é cara, mas é difícil de trazer”. O mimo excede 35 vezes o limite de compras no país vizinho. Pede uma mãozinha. “Pode comprar que eu dou um jeito”, tranquiliza Professor.

Professor precisa de um cargo público para a prima, mas em outro estado. Se fosse no seu, dispensaria intermediários. Como não é, pede a Doutor que interceda junto ao colega de Senado que manda naquelas plagas. Após falar com o ex-governador, Doutor explica que as nomeações de chefes regionais no estado vizinho são feitas pelo deputado da região. Carece aprovar com ele também, o que não chega a ser problema. Menos de duas semanas depois a prima está nomeada.

Trivialidades desse tipo são cacos nas conversas da dupla. Na frequência dos bate-papos, banalidades são entremeadas com questões de Estado. Decisões de tribunais superiores misturam-se ao regozijo com a queda de um desafeto comum. Discussões de estratégias eleitorais seguem-se a considerações sobre negócios milionários.

Doutor liga para professor e comemora que um magistrado supremo “mandou buscar” processo em instância inferior para julgar na sua corte. A ação envolve empresa do estado deles. “Deu repercussão geral pro trem aí”, resume Doutor, no palavreado que reserva às conversas com Professor. Não quer dar uma de tribuno com o amigo.

Noutras vezes, a conversa tem que ser em pessoa. Professor não mede recursos para ter o associado por perto com rapidez. Manda buscá-lo onde for: “Não esquece do avião, taí (te) esperando”. Doutor se desculpa: “Dei uma enrolada aqui. Tô chegando aí. Você vai estar na sua casa?”

Professor representa os interesses da empreiteira que mais recebe verbas do governo federal: pelo menos R$ 3,7 bilhões nos últimos 9 anos. Está preocupado com reportagem publicada sobre a empresa. Se o assunto esquentar, a empreiteira pode perder dezenas de milhões em contratos públicos. Doutor aciona seus contatos entre jornalistas e explica ao parceiro: o foco da investigação não é a empresa, mas um inimigo da dupla, que também fazia negócios com a empreiteira.

Até que o azar cruzou a sorte da dupla. Mais especificamente os jogos de azar, atividade que impulsionou a carreira do Professor.

Desde a prisão do Professor, há dois meses, seu nome e o de Doutor ganharam manchetes como nunca. Os dois caíram na boca do povo e nos dedos dos internautas. As pesquisas sobre ambos na internet viraram febre, especialmente no seu estado de origem. Nos primeiros 30 dias de estrelato involuntário, apareciam sempre na mesma frase. Mas isso mudou.

No último mês, Doutor se recolheu, fugiu da ribalta e seu nome perdeu evidência, enquanto o do Professor pipoca cada vez mais. Pela primeira vez em anos os caminhos dos parceiros se separaram. Não há mais telefonemas, muito menos visitas. A estratégia de um é se desvencilhar do outro: provar que as provas de cumplicidade, mesmo que verdadeiras, são formalmente inúteis. Querem apagar seu passado comum.

Já houve tempo em que Doutor e Professor rivalizavam para ver quem bebia os vinhos mais caros, quem tinha a mulher mais jovem e bonita, quem podia mais. Agora, disputam quem tem o advogado mais caro. Sua ascensão simbiótica foi interrompida. Outros doutores e professores se preparam para ocupar o seu lugar.

por Tatiana Plakhova (Inspiration hut)

A superficialidade fútil de FHC – por Luis Nassif

A política é construída de símbolos e mitos. E essa construção depende, e muito, da contribuição acadêmica e, especialmente, midiática.

Na história do Brasil, um dos mitos persistentes foi a do intelectual engajado, o político com formação acadêmica, com supostas luzes intelectuais capazes de conduzir o país a um destino melhor do que nas mãos de políticos tradicionais e/ou pessoas sem formação.

O mito Rui Barbosa foi o primeiro grande engodo na República. O mito FHC foi o último.

O ex-presidente tem inúmeras virtudes, poucas ligadas ao campo intelectual. A maior delas foi justamente a capacidade de operar a baixa política, de montar modelos de governabilidade através da cooptação seletiva de partidos políticos - lição ignorada por Lula no primeiro governo (e que lhe custo o escândalo do chamado "mensalão") e absorvida no segundo.

Mas no plano estrito da construção nacional, o teórico FHC foi um blefe. Limitou-se a repetir bordões da moda, sem a menor capacidade de digeri-los, trabalhá-los e organizá-los em torno de uma ideia forte.

No lançamento no Instituto Fernando Henrique Cardoso, protestou quando taxei seu governo der neoliberal - em uma questão dirigida ao espanhol Manuel Castells. Era surpreendente que, abrindo mão de qualquer forma de intervenção do Estado, até as básicas - a definição de um Projeto Nacional -, anulando todos os setores do PSDB que dispunham de uma visão social-democrata, não aceitasse que seu governo fosse enquadrado na categoria neoliberal.

Na entrevista que fiz com ele - que fecha o livro "Os Cabeças de Planilha" - era patética sua incapacidade de entender o papel de setores básicos para a construção de um país moderno: gestão, inovação, políticas sociais massivas, apoio à pequena e micro empresa, diplomacia comercial. O máximo que apresentava como fórmula de desenvolvimento era o fortalecimento de grandes grupos nacionais - os banqueiros de investimento - que, crescendo, trariam o país atrás de si. Era uma simplificação grosseira, um entendimento primário dos processos de desenvolvimento, fosse por qual ângulo se analisasse, se de mercado ou de intervenção estatal.

Acabo de receber um email de uma socióloga da USP acerca da crítica que FHC faz ao governo Dilma, de falta de um "projeto nacional".

Confiram.

Alguns críticos acreditavam que existia um projeto de país na cabeça do intelectual, que o presidente não teve condições de implementar. Nem o presidente nem o intelectual entenderam minimamente o caminho que o país deveria percorrer.

ESQUEÇAM O QUE ESCREVI... JÁ QUE EU SEMPRE ME ESQUEÇO TUDO O QUE DEFENDI...


Hoje, tivemos mais uma prova de que Fernando Henrique Cardoso não se preocupa com a coerência. No livro "A Soma e o Resto", ele afirma :"Tenho horror a essa ideia de que falta um projeto nacional, para o Brasil. Isso é uma visão totalitária, a famosa utopia totalitária."( editora civilização brasileira, R. de J., 2011, p. 52).

Pois hoje, dia 30 de abril de 2012, na Folha, caderno Folhainvest, "Mercado Aberto", p. B2, ele dá uma entrevista a Maria Cristina Frias, e, em certo momento, criticando a Presidenta Dilma, ele afirma "Nós não tivemos até agora, nenhuma discussão substancial sobre o que fazer com nosso potencial de petróleo, etanol, eletricidade (...) Não quero dizer que seja a Dilma. Podia estar eu lá e ter o mesmo problema. Precisamos de um projeto nacional. Difícil fazer com que esses temas tenham acolhida. Até no meu próprio partido...".

Ou seja, agora ele sabe reconhecer a falta que nos faz a existência de um projeto nacional!

Anotações de uma professora de sociologia da USP.

A Virgem com a Criança e Santa Ana - Leonardo da Vinci

O que Veja sabia mas não disse - por Moraes (blog do Nassif)

O envolvimento do tal Policarpo parece invocar diversos artigos do código penal (e de outros códigos, claro). Primeiro: Policarpo sabia de crimes do Cachoeira e não revelou. Pelo contrário, maquiou. Segundo: sabia do envolvimento do Demóstenes com esses crimes e não revelou. Pelo contrário: maquiou o senador como paladino da lei. Terceiro: operou de modo a favorecer o grupo criminoso Cachoeira na perseguição de seus eventuais concorrentes. Quarto: buscou, utilizou e, aparentemente, estimulou o uso de recursos criminosos (subornos, criação de testemunhas forjadas, gravações e filmagens ilegais).

O que mais queremos? No Rio de Janeiro, o chefe de polícia (ou secretário de segurança?) do Garotinho, o tal Álvaro Lins, foi flagrado numa coisa bastante similar: ele foi apontado (e condenado) como operador de uma das facções criminosas do Rio e de um "empresário de jogos", um tal Rogério Arantes, para marginalizar os concorrentes. Simples assim. Policarpo operou como agente de uma facção criminosa. E, ao que tudo indica, como operador de um sistema maior de desestabilização do governo federal para golpeá-lo até o limite, a queda.

Isto não é novo na América Latina nem no Brasil (vide Jango). Resta saber qual a 'inteligência' que está por detrás da trama maior (o golpe) e qual a participação de forças externas (isto é, se e como se relacionam com os quinta-colunas daqui). Quem acha que isso é teoria conspiratória nunca estudou história dos golpes na A. Latina. Conspiração não é fruto de imaginação minha ou sua - é fruto da 'imaginação' dos conspiradores. E eles têm muita.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Foto - El País

Uma foto recém publicada no jornal espanhol El País resume bem significativamente os nossos dias.
Enquanto a massa urge, e cerca de ¼ da população espanhola esta desempregada, a madame...

Sem interesse pelos escândalos - por Washington Araújo (Observatório da Imprensa)

Reproduzido da Agência Carta Maior, 30/4/2012; título original “Veja: De repente o interesse por escândalos refluiu...”

Tempos estranhos esses em que vivemos. Com uma imprensa sempre ávida por escândalos de corrupção, roubalheira e malfeitos, eis que temos a principal revista semanal de informações, Veja, editada pelo Grupo Abril, abordando como principal tema de capa de suas quatro últimas edições assuntos no mínimo amenos, para não dizer insossos do ponto de vista do valor-notícia, da noticiabilidade.

Desde 29 de fevereiro de 2012, quando a Polícia Federal, em conjunto com o Ministério Público Federal em Goiás e com apoio do Escritório de Inteligência da Receita Federal, deflagrou a Operação Monte Carlo, tendo por objetivo desarticular organização que explorava máquinas de caça-níqueis no estado de Goiás, o Brasil que frequenta a grande imprensa não fala de outra coisa: CPI do Cachoeira, gravações comprometedoras envolvendo o senador Demóstenes Torres, o governador goiano Marconi Perillo, a construtora Delta e uma penca de personagens menores, deputados federais, delegados de polícia, arapongas, funcionários públicos. E a cúpula da revista Veja em Brasília, especialmente o jornalista Policarpo Junior.

No rastro dos meliantes aquosos encontramos de tubarões a bagres. Confidências de alcova, palavreado de quinta categoria recheado por imagens escatológicas, tráfico de influência na modalidade “livre, leve e solta”, somas vultosas entrando em várias contas e reduzindo a pó reputações até bem pouco não apenas acima de qualquer suspeita como também incensadas como próceres da moralidade pública, formidável contraponto midiático “a tudo o que aí está”, e certeza de opinião abalizada sobre todo e qualquer assunto que afete à sociedade brasileira – da luta contra os malfeitos na máquina governamental central, federal, até a defesa sempre insustentável da quimera de uma democracia racial que jamais existiu no Brasil, mas que sempre encontrou abrigo nas principais revistas e jornais do país.

Vitrine semanal

A operação Monte Carlo é como suntuoso banquete para 700 talheres. Banquete inesperado e farto para todos os que se acreditam e autodenominam “jornalistas investigativos”. A operação consiste no cumprimento de 82 mandados judiciais, dos quais 37 mandados de busca e apreensão, além de 35 mandados de prisão e 10 ordens de condução coercitiva em cinco estados.

Não obstante a junção de tantos ingredientes e condimentos em uma mesma vasilha que se leva ao fogo, fato é que nossa principal revista semanal de informação – Veja –, decantada em verso e prosa como detentora do jornalismo de mais elevada qualidade jornalística, guardiã de tudo o que já se escreveu sobre ética, moral e bons costumes, pois bem, o carro-chefe da Editora Abril não encontrou qualquer interesse jornalístico no bojo da Monte Carlo, qualquer valor-notícia nas muitas quedas da cachoeira de crimes, ilicitudes, ilegalidades e contravenções que vêm sendo revelados à sociedade brasileira a cada dia e a cada hora. Ao menos o assunto não chegou perto de merecer uma daquelas explosivas capas da revista, sempre tão pródiga em brandir o cassetete da justiça e da moral sobe qualquer sinal de fumaça de corrupção.

Observamos, com misto de perplexidade e desencanto as quatro últimas reportagens de capa da revista Veja. São elas:

1.Edição 2264, de 11/4/2012, capa com “Os filhos da inovação”, tratando dos jovens brasileiros na “vanguarda da revolução digital”. Se optasse por levar à capa uma bela foto do Mosteiro dos Jerônimos e da Torre de Belém, em Lisboa, não faria grande diferença na vida ordenada do sistema solar;

2.Edição 2265, de 18/4/2012, capa com “Mensalão – A cortina de fumaça do PT para encobrir o maior escândalo de corrupção da história do país”. É como se por trás da cortina brilhasse a questão de fundo: “Por que abandonar nosso querido escândalo de estimação por outro que... ainda nem disse a que veio?”;

3.Edição 2266, de 25/4/2012, capa com “Do alto tudo é melhor”, tratando da relação entre altura das pessoas e sucesso na vida. Se decidisse levar à capa uma milionésima imagem do Santo Sudário talvez conseguisse maior interesse por parte de seus leitores. Ao menos, as pessoas prejudicadas verticalmente, como nos ensina os politicamente corretos a denominar as pessoas de baixa estatura, não se sentiriam minimamente ofendidas com tamanha falta de assunto, ou melhor, desfaçatez mesmo;

4.Edição 2267, de 2/5/2012, capa com “As lições das chefonas”, tratando da ascensão das mulheres na vida profissional. Essa reportagem de capa deve ter vencido por alguns míseros pontinhos o outro tema a ser alçado à sua vitrine semanal: a vida e a obra de feminista e compositora brasileira Chiquinha Gonzaga. Talvez fosse dedicado espaço para a candente letra de “Abre Alas”.

Edição imperdível

Não precisa ser doutor honoris causa de Xique-Xique, no interior baiano, para perceber que as quatro capas tentam desfazer esse clima de mal-estar e vívido constrangimento que veio a lume com a revelação de que dezenas e dezenas de ligações telefônicas legalmente gravadas tinham como dialogantes o capo Carlinhos Cachoeira e o chefe da sucursal de Veja em Brasília, Policarpo Junior. A própria revista não hesitou em ver no teor das conversas, bem pouco jornalísticas por sinal, uma nova modalidade de exercer as artes de um vibrante e dinâmico jornalismo investigativo: jornalismo-criminoso, jornalismo-ao-arrepio-da-lei.

Chegam a ser patéticas as muitas investidas da revista visando dar cores de legitimidade ao que nasceu de forma espúria, fruto de delinquência a granel, reunindo em um mesmo affair contraventor dissimulado, altas autoridades do Poder Legislativo e dublês de empresários com escroques, sob a solene inércia de baluartes de nossa grande imprensa, aquela que acredita poder debitar tudo, do lícito ao ilícito, na conta da liberdade de expressão. Não causaria estranheza se legiões de leitores da publicação ingressarem nos tribunais com ações por perdas e danos, por terem comprado como fruto de trabalho investigativo o que não passava de gravações ilegais de conversas privadas, violação do direito humano comezinho à privacidade. Em melhor português, arapongagens.

Mesmo para o leitor ingênuo, parente consanguíneo da velhinha de Taubaté, algumas questões começam a ser formuladas e passam a exigir respostas que não agridam o senso comum:

** Quem pautava quem? A revista pautava Cachoeira ou Cachoeira pautava a revista?

** Como discernir da vasta sequência de escândalos publicados, com afinco, semana a semana, quais eram reais e quais eram pré-moldados, fabricados sob medida para constranger governos, ministros, autarquias e órgãos públicos?

** Não seria o caso de se proceder a uma prova dos noves, qual seja, submeter as matérias publicadas por Veja com os áudios legalmente fornecidos pela Operação Monte Carlo, relacionando os argumentos escritos com os contextos, as falas e as estratégias criminosas abordadas na conversas do submundo de Carlinhos Cachoeira?

** Desde quando tem sido este o expediente utilizado pela revista Veja para influir na vida política e social do Brasil? Um jornalista pode ser comparado a uma autoridade policial dentro de um Estado de direito? É lídimo construir reportagens (e conspirações) de natureza política a partir de informações obtidas de forma criminosa?

** Notícias plantadas, ardilosamente publicadas e tendo como origem pessoas que se locupletam com vantagens indevidas e que fazem do crime uma profissão, merecem livre e completo acesso aos meios de comunicação em uma sociedade democrática?

** Estarão em pleno funcionamento no Brasil outras redes criminosas que conseguem pautar órgãos de comunicação para atender aos seus interesses, sempre escusos e inconfessáveis, e que ainda não foram objeto das garras da lei?

Algumas dessas questões têm tudo para compor uma edição especial – e imperdível – de qualquer revista de informação semanal que se preze. Porque existem fronteiras que não podem nem devem ser rompidas.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Lugar - Aleksei Kostjuk (Coolvibe)

Hegemonia neoliberal é antes de tudo midiática - por Denílson Botelho* (Vermelho)

Não faz muito tempo que Francis Fukuyama proclamou o “fim da história”. Com o neoliberalismo, teríamos chegado ao ápice do desenvolvimento capitalista. E desta etapa, muitos acreditam que não passaremos. A crença neste modelo tornou-se dogmática. Juntando-se a isso o relativismo radical imposto pela pós-modernidade – ou seria pelos pós-modernos? –, chegamos a uma espécie de beco sem saída. Será?


Pelo visto, a América Latina insiste em nos ensinar que talvez não seja bem assim. Tomemos o caso da Argentina, alçada à condição de bola da vez na imprensa ao reestatizar a sua empresa petroleira YPF, que foi parar nas mãos da espanhola Repsol depois de privatizada nos anos 1990 por Carlos Menem.

Como se não bastassem as lições portenhas sobre como lidar com a herança maldita de uma ditadura militar, temos agora a chance de aprender um pouco mais com as notícias que chegam do sul do continente. Lá não houve anistia ampla, geral e irrestrita. Os militares que, em nome do Estado, prenderam, torturaram e mataram, responderam judicialmente pelos seus atos. A justiça foi chamada a cumprir o seu papel republicano. Aqui, muitos dos que lutaram contra o regime militar iniciado em 1964 foram presos – inclusive nossa atual presidenta –, torturados e assassinados. Já os que torturaram e mataram jamais foram levados às barras dos tribunais. E parte da imprensa cumpre um papel obscuro quando procura confundir a opinião pública associando justiça com vingança, de forma propositalmente equivocada. A anistia pode e deve ser revista, apesar dos oligopólios midiáticos difundirem a ideia de que isso não é possível.

Da mesma forma, privatizações podem e devem ser revistas, sobretudo quando isso se torna urgente e necessário. E de novo a Argentina pode se configurar como um interessante precedente. Basta observar as condições a que grande parte da população brasileira está submetida atualmente: tornou-se refém de empresas que deveriam prestar serviços públicos de qualidade e não o fazem. Exemplos não faltam.

Por que se recusam a pautar a discussão?
Daqui de onde escrevo, estudantes e trabalhadores vêm desde o ano passado parando de tempos em tempos a capital do Piauí, em protesto contra um sistema de transporte caro, precário, ineficiente e incapaz de assegurar um direito básico e fundamental: o de ir e vir livremente. E o que dizer dos serviços de distribuição de energia elétrica pelo país afora? Em Teresina, por exemplo, as interrupções são frequentes e danosas. O cenário não é muito diferente fora do eixo sul-sudeste. Distribuição de energia elétrica é um serviço que nem mesmo alguns países europeus ousaram privatizar no processo de desmonte do Estado de bem-estar (welfare state). Ou seja, nesse aspecto, nós levamos ao extremo uma iniciativa típica do modelo neoliberal de Estado mínimo que nem na sua matriz europeia foi concretizada.

No Rio de Janeiro, o caso das barcas que atendem a população que precisa cruzar a baía de Guanabara cotidianamente é uma evidência inconteste dos malefícios de um processo de privatização que só foi bom para empresas e empresários gananciosos por mais e mais lucros. Ora, então, por que não podemos rever as privatizações? Por que os grandes grupos de mídia se recusam a pautar a discussão desse modo?

Bons ventosMiriam Leitão, escudeira-mor das Organizações Globo, diante da iniciativa de Cristina Kirchner, rapidamente bradou o velho argumento de sempre: não se pode ferir direitos e rasgar contratos. Direitos de quem? Dos empresários? E contratos não podem ser desfeitos mesmo quando se mostram lesivos à maioria da população? O medo maior é que, ao rever anistia e privatizações, cheguemos também às concessões públicas de radiodifusão no Brasil – cujas renovações deveriam ser submetidas ao debate e ao interesse público, mas não são. Se um dia o forem, estaremos derrubando um dos principais pilares de sustentação da hegemonia neoliberal, que é antes de tudo midiática.

Mas a história continua, ao contrário do que defendeu Fukuyama. E enquanto eu escrevo estas linhas, você as lê e cada um segue na sua labuta cotidiana, há todo um campo de possibilidades se descortinando no horizonte, bem diferente de um beco sem saída. Que bons ventos continuem a soprar da Argentina...

*Denílson Botelho é historiador e professor da Universidade Federal do Piauí, autor do livro A pátria que quisera ter era um mito – O Rio de Janeiro e a militância literária de Lima Barreto.