sábado, 27 de fevereiro de 2010

A esperança venceu o quê mesmo? - por Leandro Arndt

Data estelar: Sol e Plutão em sextil; Lua quarto crescente transita por gêmeos. Enquanto isso, aqui na Terra, o grande mal de anos de governo viciado em crimes impunes é ter difundido desânimo e desencanto nas pessoas idealistas que com tanto ardor apostaram no último reduto de suas esperanças. A propaganda de que a esperança tinha vencido o medo foi de encontro à realidade em que o crime saiu vitorioso sobre as instituições democráticas. Esse não é um fenômeno regional, é toda uma tendência histórica cuja maior ameaça é as pessoas idealistas entregarem de vez suas vidas, desistindo do esforço que continua necessário para que o ponto de mutação se torne concreto. A desistência seria ainda mais nefasta do que tudo que foi testemunhado até aqui, porque disseminaria o mal por várias gerações futuras.
(Jornal Correio Braziliense, 22 de fevereiro de 2010, caderno Hora Livre, p. 2, coluna “horóscopo”, por Oscar Quiroga)



Fiquei estupefato quando um amigo meu me mostrou isso. Não sabia se desatava a rir com tantas bobagens, ou se ficava com raiva de tamanha manipulação. É hábito comum falar em blogues sobre nosso infame PIG, Partido da Imprensa Golpista — algo que procuro não tornar o centro das minhas postagens, e que entretanto por vezes se torna necessário.
Mas, o que mais me impressionou não foi, a princípio, o uso de um “horóscopo” para falar mal do governo Lula (a frase que destaquei não deixa margem a qualquer dúvida). Espero qualquer coisa do PIG. O que me impressionou foi fazerem isso justamente num jornal brasiliense no momento em que o governador do Distrito Federal está preso, às vésperas da renúncia do vice-governador e da posse de um íntimo aliado do governador-detento, tudo em virtude de um grande esquema de corrupção que esse mesmo jornal tentou encobrir, como já foi fartamente comentado na blogosfera. Sim, o Correio Braziliense, que, quando foi deflagrada a operação Caixa de Pandora pela Polícia Federal, disse que houve busca e apreensão no “gabinete anexo” à residência oficial do atual governador-detento, como se não fosse esse o gabinete do próprio governador na residência oficial do governo do Distrito Federal (GDF). A princípio foi isso que me chocou. Em seguida, veio simplesmente a estupefação pela volta à propaganda serrista das eleições de 2002: “Eu tenho medo!”, como já dizia a Regina Duarte. Foi daí que a esperança venceu o medo, e venceu tão fragorosamente que o medo está com medo de voltar a concorrer com a esperança em 2010.

Espero qualquer coisa do PIG, já disse. Mas, afinal, o que ficou após a leitura do “horóscopo” foi uma impressão diversa das anteriores: o vislumbre de uma campanha midiática, já desatada há muito tempo, de volta à guerra fria. Ontem mesmo falavam da morte de um preso em greve de fome em Cuba, sem falar de Guantânamo, das prisões secretas americanas, das guerras sem-fim que esse país promove mundo afora. Não falavam também das valas-comuns na Colômbia, em que milhares de “falsos positivos”, pessoas comuns, mortas e apresentadas como guerrilheiros, foram enterrados. Não, falavam que Lula visitou Fidel e Raul Castro no dia seguinte à morte de um preso em Cuba — e reparem como a morte de um preso em Cuba dá notícia! Quando da Conferência Nacional de Comunicação, o PIG estrepitosamente indundou nossas casas com a grita anticomunista que insistem em tirar do armário. Quando o governo propôs a Ancinav, a mesma coisa, pela simples possibilidade de a Ancine ter uma substituta com mais atribuições. Os exemplos dessa grita são muitos.

A diferença é que, dessa vez, o medo foi implantado no horóscopo. Não acredito que isso tenha mudado o dia de muita gente — mesmo os mais supersticiosos devem ter tido um dia feliz com mais uma postergação da libertação do governador-detento do Distrito Federal. Mas, isso lembra os tempos sombrios da ditadura civil e militar no Brasil, com a qual os jornalões colaboraram ativamente, mas durante a qual alguns jornalistas ainda podiam ousar esconder notícias reais em lugares às vezes inusitados. O que me assombrou mesmo foi ver uma crítica desvairada ao governo Lula ser publicada num hosróscopo, como se precisasse ter sido escondida da censura ou de alguma “tropa de choque” lulista. Pode ter sido um mero rompante astrológico do autor da coluna, mas não duvido que alguém, se apercebendo da existência desse arroubo, venha a dizer que, sob o governo Lula, a imprensa teve de esconder a realidade em “horóscopos”, “receitas de bolo” ou “previsões do tempo”. Quem sabe, inspirando-se nisso, Miriam Leitão, William Waack, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e outros passem a ser “astrólogos”, “chefs”, “meteorologistas”, e sabe-se lá o que mais — ao menos nos livrariam de seus comentários econômicos e políticos. Mas, sei de uma coisa: assim como a blogueira Yoani Sanchez é a prova cabal da liberdade em Cuba, essa coluna política do Correio Braziliense e os horóscopos desses últimos comentadores são a prova cabal da democracia no Brasil. Talvez sejam até mais: a prova cabal de uma ditadura que não é de governos, mas de opiniões — de algumas opiniões.

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