quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Fotografia - por Jennifer Pallian (Unplash)

Perguntar quem nunca será preso é forma de entender o poder no Brasil – por Vladimir Safatle (Folha)

Marcelo Cipis - Folhapress

       O que há de mais cômico no Brasil destes últimos tempos é o tom.
Diante de um país no qual o ocupante da Presidência rifa direitos, facilita o uso de trabalho escravo, compra deputados e usa a máquina governamental para livrar-se de uma denúncia da procuradoria por formação de organização criminosa e obstrução de justiça, no qual um ministro do STF recebe 46 ligações de Whatsapp de um réu com o qual ele tem ligações sabidamente carnais, o cômico é ouvir o tom de quem narra tudo isto como se estivéssemos a assistir os embates políticos de uma democracia.
Deve ser algo parecido à República velha, na qual uma oligarquia inventava eleições de fachada e a imprensa descrevia aquele jogo de cena como se fosse um embate democrático.
O fato é que nunca o país mostrou de maneira tão explícita quão bem ele se acomoda a ser uma cleptocracia na qual os três poderes estão organizados para defender uma espécie de núcleo duro da espoliação nacional.
O Estado brasileiro estará disposto a usar de toda sua violência e intimidação para deixar intocada sua casta.
O caso do senhor Aécio Neves é exemplar neste sentido.
Mesmo sendo pego em gravações telefônicas expondo explicitamente manobras de obstrução de Justiça, mesmo dizendo ser necessário conseguir um atravessador que pudesse ser morto posteriormente, este senhor continua senador da República.
Ou seja, se quisermos entender como o poder funciona no Brasil, temos que nos perguntar sobre quem é intocado.
Quem, a despeito de toda cortina de fumaça, escapa sempre das amarras da Justiça. Quem, mesmo denunciado, nunca será preso.
Há várias formas de um país se degradar e o Brasil tem conhecido a mais brutal de todas, a saber, a explicitação dos mecanismos implícitos de funcionamento da democracia liberal.
A democracia liberal funciona com um duplo sistema de normas.
O primeiro é um sistema explícito de regras e normas enunciadas no ordenamento jurídico.
O segundo é um sistema implícito de práticas e violências que, a princípio, não devem vir à tona, que deve ser feito em silêncio.
Ou seja, a democracia não é apenas o império da lei. Ela é a gestão de anomias cujas dinâmicas não devem ser explicitadas.
No entanto, no Brasil atual, são tais práticas que ganham a cena sem que sua explicitação provoque maiores consequências. Isto ao menos tem uma consequência positiva, a saber, mostrar quão farsesca sempre foi nossa República.
Na melhor das hipóteses, isto pode deixar claro o tipo de tarefa política que se impõe daqui para a frente. A tarefa de ser capaz de se confrontar com a incapacidade nacional de construir uma democracia e com a necessidade de produzir o que até agora nunca existiu.
Não poderia ser diferente em um país que conheceu uma espécie de "transição democrática infinita", mas no sentido do mal infinito hegeliano.
Ou seja, uma transição que nunca terminou, que foi feita para nunca terminar.
Pois uma democracia efetiva só poderia ser construída sobre as bases de um empuxo social em direção à constituição de uma sociedade economicamente igualitária.
Mas hoje sabemos que mesmo as políticas implementadas nos últimos quinze anos não tiveram impacto significativo algum na desigualdade que destrói toda possibilidade de uma sociedade minimamente coesa.
Ao Brasil, cabe a possibilidade de continuar a farsa, brincando de eleições no interior de um sistema que funciona para blindar o núcleo duro do poder e para jogar a polícia para cima dos descontentes.
Ou aqueles que tomaram nota da degradação podem recusar as saídas autoritárias que rondam a história brasileira e procurar criar, pela primeira vez, as bases de um poder popular que possa se colocar como a força imanente e presente da República.
Em um momento no qual o resto do mundo se debate com os fins da democracia e a ascensão das estratégias populistas, o Brasil pode se colocar em um horizonte global de procura por uma experiência de emancipação social que é a grande tarefa deste início de século.

Arte digital - por Philip Straub (Coolvibe)

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Tempos desesperados - por Clarissa Nonada (Facebook)

São tempos desesperados... estamos em épocas de histeria coletiva, inclusive a nossa, ditos à esquerda, e realmente tem sido muito difícil viver entre a vida cotidiana, as obrigações e as notícias que nos atropelam. Mas quando foi fácil? Estamos como resultado da luta de classes.

Desde o golpe sobre a presidenta Dilma, mais um pra história de um país que ainda não se encontrou na civilidade de ser nação (de si para seu povo), de repente sempre há mais uma notícia, absurdo, retrocesso à vista; há sempre um novo ataque e, na posição de passivos, recebemos cada avanço do atraso impactados, raivosos, mas sem forças para reagir porque nesse processo permanecemos também fragmentados e enfraquecidos. Nem entre iguais há diálogo.

Tem sido muito duro, sobretudo para a juventude, suportar a retirada de direitos. Nisso, o que há de pior no país avança, ataca, manifesta-se livremente numa cortina de maldades que, enquanto esconde toda a sacanagem mental dos nojentos, aparenta ser apenas opinião divergente e, no pior de nossos julgamentos, apenas burrice. Não é. Eu não acredito mais que diante dessa montanha de desastres, existam pessoas inocentes-burras-atrasadas-iludidas-desnorteadas, essa categoria de gente não existe mais. Se estamos em tempos de queima de bruxas, de escracho de uma filósofa, de apoio a racistas confessos, de censura a museus, de naturalização de estupros, de ração humana e seja lá mais o que for que tem acontecido, estamos diante do pior lado da humanidade e isso não é só burrice, não sejamos nós os iludidos... essa gente pensa, se expressa e se multiplica, são fascistas em potencial e não dialogam porque o ódio que eles sentem contra mulheres, negros, gays e pobres é substancial e perigoso. São inimigos.

Sobre Temer, o golpe e a corja no poder, o livro das mutações, um livro oriental de mais de 5 mil anos e que sou muito apegada e devota, tem um hexagrama muito claro: “os medíocres ocupam postos que ganharam de maneira ilegítima, mas todos já começam a se dar conta de que não é o que lhes corresponde”. E de fato, Temer entra pra história como o mais rejeitado dentre os rejeitáveis.


Nos resta, do nosso lado na luta de classes, não desanimar com a escuridão dos dias difíceis e disputar essa consciência que nega a Temer, evitando que escolha um caminho pior, da repressão e do massacre; evitando que seja cooptada pela violência dos fascistas que aproveitam essas épocas confusas para crescerem como erva daninha. Bolsonaro só ganhou espaço agora. Apesar de ser tempos de desânimo e de pouca ou nula reação de nossa parte, nos contagiar com o fim do mesmo hexagrama é fundamental: “os inimigos sofrerão uma grande derrota e, a partir daí, começa um período luminoso.”

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Pintura – por Bob Baker (Ifobox)

Holiday, o MBL e o Caixa 2, Frota e a bunda do juiz. E Veríssimo e o nosso “redículo” - por Bob Fernandes (Gazeta)


Na Folha, Mônica Bergamo conta: Gilmar Mendes quer debater a "influência das Mídias" na Política.... (Isso porque agora está apanhando)...
...O ministro Luiz Fux, ainda muito antes do caso talvez um dia chegar ao Supremo, já pré-julgou: disse que Lula não pode ser candidato.
Luis Fernando Verissimo, sobre o que transcende o "ridículo" escreveu com o brilho de sempre:
– O golpe contra Dilma que não ousou dizer seu nome foi "redículo". O Supremo Federal teve suas recaídas no "redículo". O Gilmar Mendes é "redículo".
E continuou:
– O Congresso Nacional foi repetidamente "redículo". O Temer é cada vez mais "redículo" ...
Disse Veríssimo:
– (...) Se houver eleição, apesar de tudo será um sinal de que a nossa frágil democracia resistiu ao "redículo" terminal.
Há no cenário político "redícula" imitação da Nova Direita Europeia. Com macaquices da direita norte-americana e da brasileira de sempre.
MBL, Kim & Cia, e Alexandre Frota, ator pornô, ganharam espaços nas Mídias quando necessário. Vejamos o que são.
Na eleição municipal, Celso Teixeira foi advogado do hoje vereador Fernando Holiday (DEM-SP), um líder do MBL.
Em vídeo, na sexta-feira,3, o advogado Teixeira revelou: Holiday ficou com dinheiro da campanha "que teve Caixa 2".
Teixeira diz ter sido "ameaçado de morte".
Fernando Holiday nega tudo.
Um ex-integrante já relatou: no impeachment o MBL foi financiado por partidos. A revista Piauí contou: hoje integrantes do mercado financeiro financiam o MBL.
Isso a Nova Velha Direita faz. Ouçamos o que dizem alguns dos seus "líderes".
O vereador Carlos é filho de Bolsonaro. No domingo, 5, Carlos tuitou: "Direitos humanos: esterco da vagabundagem".
Numa imagem na internet, Bolsonaro pai, candidato à presidência da República, posa com uma camiseta e seu lema:
– Direitos humanos: esterco da vagabundagem.
Nesse assunto os Bolsonaro são especialistas.
Na campanha presidencial, óbvio, a imagem do esterco correrá o mundo.
Alexandre Frota perdeu uma causa para a ex-ministra Eleonora Meniccuci. Derrotado, culpou o traseiro do juiz. Disse:
– O juiz, ativista do movimento gay, não julgou com a cabeça, julgou com a bunda.

Desde a campanha pelo "redículo" impeachment esses tipos são a infantaria. São vozes e pontas de lança da Nova Velhíssima Direita.

Fotografia - por Gratisography


Carmen Lúcia e os princípios como escada – por Luis Nassif (Jornal GGN)

 
Há diversas formas de coragem, das quais a bazófia é a caricatura. Há a bazófia por ambição, vaidade, oportunismo, medo. Presidente do Supremo Tribunal Federal, Carmen Lúcia é cultivadora da bazófia.

Por ambição, investiu no relacionamento com alguns dos mais célebres juristas brasileiros, cobrindo-os de consideração e de pães-de-queijo. Subiu de carona em valores como o do respeito às diferenças, à diversidade, o cultivo da tolerância, em um tempo em que era bom negócio ser politicamente correto, pois fechava os olhos da opinião pública a outros atributos, como competência e conhecimento.

Assim que foi anunciada sua posse na presidência do STF, Carmen Lúcia inundou o país de frases vazias, que a retratavam como a dirigente corajosa e solidária. 

Por vaidade, bradou: "Onde um juiz for destratado, eu também serei". Depois, por ambição, prima irmã da covardia, endossou investigação contra os quatro únicos juízes federais que ousaram questionar o impeachment.

Por oportunismo, tentou se mostrar superior à presidente caída: "Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa. Eu acho que o cargo é de presidente, não é não?” E apenas demonstrou covardia, por avançar contra pessoa caída, e ignorância, porque o português prevê as duas formas.

Dentre as inúmeras frases de manual, uma definição de ética: "Ética não é uma escolha. É a única forma de se viver sem o caos". O que a nobre frasista quis dizer? Se não é escolha, então seguir princípios éticos é obrigação. Ou por vias legais – tratando parte das manifestações de intolerância como crime –, ou pela condenação social contra atos corriqueiros, como conversar no cinema, berrar em restaurantes, manter conversas sexistas com autoridades diversas, defender a violência como solução.

Era nesse sentido  de que a ética não é uma escolha  que os exames do ENEM, destinados a selecionar a futura elite social do país, definiram a nota zero para redações que afrontassem esses princípios.

Não são princípios vagos, mas aqueles reconhecidos pelas cortes internacionais, pela ONU, que integram os códigos civilizatórios das nações.

A PGR (Procuradoria Geral da República) e a AGU (Advocacia Geral da União) definiram objetivamente os critérios a serem considerados: menção ou apologia à defesa da tortura, mutilação, execução sumária ou qualquer forma de justiça com as próprias mãos. Incitação a qualquer tipo de violência motivada por questões de raça, etnia, gênero, credo, condição física, origem geográfica ou socioeconômica; explicitação de qualquer forma de discurso de ódio.

O que disse a Escola Sem Partido? O ENEM acaba impondo respeito ao "politicamente correto, que nada mais é do que um simulacro ideológico dos direitos humanos propriamente ditos". 

E teve o endosso total de Carmen Lúcia, a jurista que subiu nas asas do politicamente correto, que fez carreira escudando-se em juristas consagrados na arte de defender os direitos fundamentais, como Sepúlveda Pertence, Celso Antônio Bandeira de Mello e Fábio Konder Comparato.

A frasista que sustentou que ética é obrigação, liberou geral:

"Não se desrespeitam direitos humanos pela decisão que permite ao examinador a correção das provas e a objetivação dos critérios para qualquer nota conferida à prova. O que os desrespeitaria seria a mordaça prévia do opinar e do expressar do estudante candidato (...) Não se combate a intolerância social com maior intolerância estatal. Sensibiliza-se para os direitos humanos com maior solidariedade até com os erros pouco humanos, não com mordaça".

Entenderam?

Data venia, a frase entrará para a história do Supremo como uma das grandes imbecilidades já cometidas pelos Ministros. Carmen Lúcia quis dizer que a maneira de combater a intolerância é tendo solidariedade com a falta de tolerância, os chamados “erros pouco humanos”. E ter solidariedade, na opinião desse gênio do direito, é dar uma boa nota no ENEM aos “erros poucos humanos” – ou não é sobre isso que se está discutindo? 

Vive-se um momento em que a selvageria está derrubando todos os muros das convenções sociais, das normas básicas de civilidade e da própria legislação. A atitude de Carmen Lúcia convalida esse jogo bárbaro.

Duas de suas frases prediletas foram: "o cinismo venceu a esperança" e "o escárnio venceu o cinismo". 

Que frase Carmen Lúcia escolheria para o desempenho de Carmen Lúcia?

"Princípios são degraus de uma escada utilizada para atingir o poder. Chegando ao alto, a escada só serve para descer. Razão por que, se torna inútil e deve ser descartada”.