sábado, 20 de janeiro de 2018

Fotografia - por Cupcake

Trump, o remédio errado para um problema real – por André Araújo (Jornal GGN)


Porque Trump foi eleito? O mais improvável e despreparado Presidente dos EUA desde Warren Harding, Presidente de 1921 a 1923, Donald Trump foi um choque e uma surpresa para o mundo. Porque esse nó-cego foi eleito em um País com sólida experiência democrática e que já teve padrões do nível de um Roosevelt, de um Eisenhower, de um Clinton?

A resposta é ao mesmo tempo simples e complexa. Trump foi eleito por causa de uma profunda crise social que se desenrola nos EUA, provocada pela globalização financeira inventada pelos próprios americanos, sem medir suas históricas e terríveis consequências.

A globalização financeira ARRUINOU a até então sólida classe média americana, símbolo, esteio e eixo central da democracia dos Estados Unidos. Esse mesmo movimento vem desde 1994 arruinando a economia brasileira, quando foi abandonado o PROJETO NACIONAL DESENVOLVIMENTISTA que deu ao Brasil um crescimento médio de 7% ao ano entre 1950 e 1980, processo que transformou o Brasil de uma grande fazenda de café em uma potência geopolítica e econômica com defeitos, MAS com uma TRAJETÓRIA de desenvolvimento consistente que construiu uma nação moderna e a 7ª economia mundial.

Voltemos aos EUA. Vou citar um caso emblemático que conheço de perto. Um executivo americano casado com brasileira era gerente sênior de uma importante empresa de serviços de informática em São Paulo. Fez carreira na empresa, nela cresceu. Comprou terreno no Brooklin, bairro de São Paulo, construiu uma bonita residência, dois carros e a esposa não precisava trabalhar. Em 2007 sua superior em São Paulo foi promovida e transferida para a matriz no Texas. Convidou esse executivo para se transferir também para a matriz com promoção. O rapaz vendeu a casa em São Paulo e levou a esposa e dois filhos pequenos para morar nos EUA, ele já como executivo na matriz. Dois anos depois a empresa foi adquirida por outra maior, como é usual fizeram um corte de empregados e ele foi despedido.

Já com 46 anos não conseguiu novo emprego no seu nível e teve que queimar todas suas economias para sobreviver desempregado. Hoje ele faz faxina de avião, à noite, no aeroporto de Dallas. A esposa, que nunca havia trabalhado, é caixa de supermercado. Evidentemente que os dois constam nas estatísticas como empregados, mas com quais empregos?

Esse é um caso muito comum na economia americana do grande coração do centro-oeste dos EUA. Esse meu conhecido foi eleitor fanático de Trump, assim como milhões de outros nas mesmas condições, viram seu sonho de vida desabar em nome da economia de mercado distorcida pelo desprezo do bem comum para toda a sociedade em benefício de poucos.

A estatística oficial de desemprego nos EUA é baixa, em torno de 4,4% MAS não reflete a real situação social. Um enorme número de americanos teve REBAIXAMENTO DE RENDA, aceitando empregos de sobrevivência abaixo de sua formação e experiência profissional.
Isso ocorreu nos outrora grandes Estados industriais que se orgulhavam de sua indústria de marcas consagradas em máquinas operatrizes, máquinas rodoviárias, motores de barcos, tratores, aço, geradores, compressores, válvulas. Com a globalização desapareceu o coração industrial de Illinois, Indiana, Michigan, Missouri, Kansas, Ohio, Wisconsin.

Eram empregos que pagavam bem, hoje não existem mais esses empregos, o antigo ferramenteiro virou chapeiro de lanchonete, ganhando um quarto do que ganhava.

Ao mesmo tempo aumentou brutalmente o número de bilionários nos EUA, enquanto a classe média se desintegra. A globalização financeira que faz de toda a economia um jogo infernal de fusões e aquisições é responsável pelo processo. Essas fusões, cada uma, gera novos bilionários, mas na sequência imediata dessas transações é o CORTE DE FOLHA para gerar caixa para pagar a fusão. Ganham milhões de dólares de comissões os banqueiros de investimento que fizeram a corretagem da transação. PERDEM no geral os empregados de todos os níveis. É um processo INFERNAL que está destruindo a economia mundial.

Os “gurus” neoliberais informam que se criaram outros empregos no setor de alta tecnologia da Califórnia, mas a proporção é de um emprego novo para cem perdidos na indústria.

Nos EUA de hoje sete milhões de americanos moram em CARROS porque não podem pagar aluguel de uma casa, 23 milhões moram em TRAILERS, casa-carro inventadas para viagens, mas não para moradias permanentes. Os “foreclousures”, retomadas de casas financiadas por hipotecas já chegaram a 19 milhões desde 2008, pessoas perdem a casa porque não conseguiram pagar prestações, as casas retomadas ficam fechadas e a venda mas poucos se apresentam para comprá-las, há bairros inteiros que são “cemitérios de casas”, essa é a louvada “economia de mercado” dos sonhos das Landau, dos Gustavo Franco, da turma do INSPER, um pesadelo social irresolvido e que não se resolverá no ciclo neoliberal infernal que querem transplantar para o Brasil, um inferno para 4/5 da população, esse é o ninho de Trump, um falso remédio para um problema real desse ciclo que está liquidando com o tecido social de muitos países outrora com sociedades equilibradas e hoje cheios de moradores de rua, drogados, pessoas que abandonaram qualquer ideia de futuro dentro da sociedade.

O processo pode ser eficiente em termos de microeconomia, a empresa ganha pela produtividade da maior escala, mas à custa de despedir funcionários em TODOS OS NÍVEIS.

É ABSOLUTAMENTE FALSO que essa “economia de mercado” é algo saudável, não é e não resolverá crises sociais pelo mundo afora, é um mito e uma quimera, NÃO FUNCIONA como modelo para países civilizados, é uma IDEOLOGIA maligna pelos seus maus resultados.

O ganho microeconômico, no nível da empresa, não significa ganho macroeconômico, em termos da sociedade como um todo. Na degradação dos empregos perde a população porque cai sua renda, aumentam os custos de saúde pela desagregação das famílias, depressão, alcoolismo, drogas, tudo causado pela ruptura de estilos de vida e do tecido social. O País como um todo PERDE e perde muito, jovens não conseguem o primeiro emprego e como os pais perderam renda já não podem cursar universidade. É um desastre social imenso, Trump é o remédio desesperado para uma crise real, é o remédio errado para uma doença verdadeira, para esse enorme grupo de cidadãos que viu seus sonhos rompidos por um processo autofágico, destrutivo e que a longo prazo significa PERDA e não ganho para a economia.

Nos anos de ouro da economia americana, de 1945 a 1975, a Divisão Antitruste do Departamento de Justiça bloqueava nove em cada dez fusões propostas, era o espírito dos dois Presidentes Roosevelt, Theodore e Franklin, inimigos dos trustes e cartéis.

Theodore Roosevelt mandou dividir em seis pedaços o truste Rockefeller, era inimigo de toda concentração de capital que via como maléfica ao povo dos EUA, isso fez dos EUA de 1900 a 1960 uma sociedade equilibrada entre o capital e o trabalho, uma sociedade bem resolvida.

Hoje, por causa da globalização financeira, a concentração passou a ser vista como essencial ao capitalismo, o que é apenas uma crença ideológica propagada pela onda neoliberal de Friedrich von Hayek. Há outras formas de organizar uma economia sem mega concentração de capital, danosa a todos os países e benefício exclusivo aos financistas.

Trump não vai consertar a economia, ele é apenas o produto de uma realidade que ele não irá mudar porque sequer tem consciência real do problema, é um primitivo intelectual e pode até agravar a situação com medidas erradas que não atacam o problema.

Mas a sua motivação por trás do “fechamento” da economia americana ao globalismo vem de um instinto de que existe um problema na globalização. Trump é um instintivo e captou a natureza do problema que pretende enfrentar com ferramentas erradas.

Se ele tivesse consciência não teria permitido, ele tem poderes legais para tanto, a compra da MONSANTO, empresa líder mundial de pesquisa em agroquímica, pela BAYER alemã.

A MONSANTO era a maior empresa de Saint Louis, cidade que conheço bem porque lá trabalhei nos anos 70, fico imaginando como estão se sentindo seus cidadãos tendo agora como poder local uma empresa alemã com cultura muito diferente.

O cheiro tóxico do desemprego paira no ar, uma empresa comprada por outra é virada do avesso, nada fica igual e em pouco tempo o novo dono muda a cara e a cultura de empresas que são como instituições profundamente imbricadas na sociedade local.

Atitude muito diferente teve o governo britânico ao impedir, porque qualquer governo pode impedir, a venda da UNILEVER, empresa bicentenária e símbolo do capitalismo inglês para um grupo pirata constituído pelos conhecidos brasileiros do grupo Lemann junto com o americano Warren Buffet. O Governo britânico disse NÃO e ponto final, mostrou que é Governo e não serviçal da finança internacional, não vai permitir que uma empresa de tal importância nacional seja esquartejada por financistas apátridas, essa é uma questão POLITICA e não econômica, é hora de todos os governos se uniram contra a finança corsária apátrida.

Infelizmente essa consciência não chegou a outros governos, inclusive o brasileiro, que vem permitindo a compra indiscriminada de empresas brasileiras por estrangeiros, o que representa uma mega destruição de valores culturais, relacionamentos e empregos.
Um exemplo claro é a ELETROPAULO que quando foi privatizada tinha 27.000 empregados, que vestiam a camisa da empresa e tinham orgulho de trabalhar nessa histórica companhia o número de empregados era compatível com seis milhões de consumidores, era a maior distribuidora de energia elétrica do País.

Hoje essa empresa, controlada por um fundo financeiro americano, opera com pouco mais de 3.000 empregados e quase tudo é terceirizado, sem cara, sem alma, sem camisa, tudo é feito na base do baixíssimo custo, sem investimentos, o único objetivo é mandar dividendos para a matriz nos EUA, a empresa perdeu a alma, até mudou de São Paulo.

Ao contrário dos que apregoam os gurus neoliberais, a globalização financeira não é um imperativo econômico, é um OPÇÃO IDEOLOGICA e sua aceitação ou não é uma questão política, não é uma onda inevitável. A China, por exemplo, tira proveito da globalização, mas não se deixa manipular por essa ideologia. Suas fronteiras são fechadíssimas para tudo que pode prejudicar o emprego na China ou coloque em risco empresas chinesas. Banco americano não entra na China, nem seguradoras, nem muita coisa que os americanos se orgulham de exportar. Os chineses abrem e fecham as válvulas de sua economia de acordo com seus interesses de Estado e não porque a globalização é uma “onda inevitável”, os chineses estão vacinados com a intromissão internacional desde quando estrangeiros retalharam a China em pedaços no fim do século XIX, dopando seus cidadãos com ópio.

Trump é um remédio, pode ser um purgante, mas não foi Trump quem criou o problema.

O ciclo infernal da globalização financeira, nome da NOVA PESTE NEGRA que pode acabar de destruir o mundo, é o problema real, Trump é apenas um efeito defensivo.

Fotografia - por Maynard O. Williams (National Geographic)

A indústria cultural e a esquerda – por Gabriel Bichir (Meu Professor de História)

A esquerda não consegue disfarçar seu fascínio pela Indústria Cultural, fascínio este que nada mais é do que cumplicidade tácita – uma esperança de que, no fundo, nada mude, de que aquilo que é continue sendo. Está circulando por aí um texto sobre o novo clipe da Anitta que afirma categoricamente, eu cito, que "a bunda é sujeito". Chegou-se a um nível de estupidez que só resta ponderar como o pensamento foi capaz de se render a tal ponto de entregar todas as suas prerrogativas para o marketing mais canhestro.
Pensamento enlatado, bunda cartesiana! A frase é perfeita, porque o que se quer é justamente isso: representação. O clipe mostra a favela, seus integrantes, toda sua diversidade, mostra até mesmo uma bunda com celulite (!). Nada menos que revolucionário, aparentemente. A lógica é estritamente narcísica: eu preciso me ver representado na mercadoria, ela deve refletir todas as minhas qualidades, uma a uma; para conquistar a esquerda basta preencher uma lista de pré-requisitos, nada mais. A obra realmente fiel à favela seria aquela capaz de lembrar que ela não deveria existir.
Esqueceu-se de que crítica pressupõe distância do objeto. Toda crítica aos produtos da IC que desagrada a esquerda é chamada de elitista, reacionária, contra a diversidade etc. Repita-se: não existe crítica sem distância do objeto, afastamento necessário para que o pensar possa se colocar sem estar atado às determinações do dado, aquilo que constitui sua base material. O que é uma música revolucionária? Seria aquela que simplesmente reproduz o mundo tal como é, que ratifica as divisões existentes e as eleva ao patamar do imutável? Pois no clipe a diferença nunca fala de fato, ela nada mais é do que caricatura de si – as imagens estereotipadas das mulheres alinhadas apenas de biquíni falam por si próprias, são exatamente as mesmas reproduzidas nos clipes mais descaradamente machistas de cantores americanos. Junte-se isso a uma batida monotônica, idêntica a qualquer música pop americana e tem-se a fórmula do sucesso: cinismo.
O foco da crítica não deveria ser mostrar como na verdade o clipe objetifica a mulher em vez de "empoderá-la". Não basta dizer que a bunda é objeto, mais interessante seria questionar o que permite que seja chamada de sujeito. Não é curioso que se utilize uma palavra tão carregada de peso filosófico-histórico para designar uma parte do corpo, e não o corpo na totalidade? Nisso, o pensamento reificado toma consciência de si e faz questão de afirmar sua vitória, pois o corpo não é de fato corpo, apenas seus disjecta membra, que reivindicam para si o monopólio da sensualidade. Mas o problema do clipe é precisamente ser sexual de menos: trata-se de uma experiência manufaturada do que pode verdadeiramente um corpo (que, como sempre, serve apenas como brinquedo para manipulação do homem. Não existe uma única cena no clipe inteiro que não seja talhada do ponto de vista masculino).
Se Adorno estava certo ao reivindicar "Nenhuma emancipação sem a da sociedade", então deveríamos repetir: "Nenhum empoderamento sem o de toda a sociedade". Pois a noção de empoderamento como atributo individual não é só falsa, como conivente com o status quo e fruto de uma violência. Nossa esquerda reproduz, na verdade, a esperança de um iluminismo rastaquera: que uma mulher rica, nadando no dinheiro devido a sua imagem "progressista", possa inspirar (!) meninas para serem como ela, transmitindo, quase que por mágica, o flogisto do empoderamento. A razão que se reverte em mito. Se essa for de fato a função que restou à arte – a de imitação servil do real – então estamos perdidos.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Arte digital - por Hossein Zare (Bizarre Art)

De Getúlio a Jefferson, PTB acaba com direitos e Temer mente sobre emprego - por Ricardo Kotscho (Balaio do Kotscho)

A trajetória do PTB (para quem não lembra, a sigla quer dizer Partido Trabalhista Brasileiro), de Getúlio Vargas, seu fundador, a Roberto Jefferson, atual dono da legenda, é emblemática da degradação do sistema político-partidário no país.

Getúlio criou a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) na década de 40 do século passado, que acaba de ser desmontada em poucos meses pelo governo Michel Temer, ao implantar na íntegra o projeto de reforma apresentado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), sob a alegre batuta do agora ex-ministro Ronaldo Nogueira, do PTB gaúcho (gaúcho como Vargas!), indicado por Jefferson, que atendeu a todas as antigas reivindicações do patronato para acabar com os sindicatos, a Justiça Trabalhista e os direitos dos assalariados.

Ninguém sabia quem era Ronaldo Nogueira, que agora voltará para o anonimato do baixo clero, mas seu nome será lembrado como o do ministro do PTB que tentou revogar a Lei Áurea. Houve protestos até da ONU e Temer foi obrigado a recuar daquela barbaridade que praticamente liberava o trabalho escravo no Brasil.

Sob o pretexto de “modernizar a legislação trabalhista” para criar mais empregos, Nogueira apresentou um balanço da sua gestão na carta em que pediu demissão do cargo na quarta-feira.

“Saímos de um modelo de alta regulação estatal para uma forma moderna de autocomposição dos conflitos trabalhistas, colocando o Brasil ao lado das nações mais desenvolvidas do mundo”.

Que beleza, agora somos modernos! O que dirão disso as “nações mais desenvolvidas”? A quem eles pensam que enganam?

Colocar os trabalhadores para defender seus direitos em negociação direta com os patrões, sem a intermediação dos sindicatos e do Estado, é mais ou menos como botar o meu São Paulo para jogar de igual para igual com o Barcelona, no campo do Barcelona, num jogo sem juiz, com os direitos de transmissão de TV negociados por Marin, Teixeira, Del Nero e cia. bela.

Por ironia do destino, no mesmo dia, o ministro do PTB, que será substituído por outro deputado do PTB, também indicado pelo inefável Roberto Jefferson, foi obrigado a anunciar que em novembro o Brasil teve mais demissões do que contratações, com um saldo negativo de 12,3 mil vagas, justamente no mês em que foi implantada a nova legislação trabalhista. Em lugar de mais empregos, mais demissões.

Nos primeiros 11 meses de 2017, o saldo foi positivo em 299,6 mil vagas, bem longe do um milhão de novos empregos repetidamente anunciados pelo presidente Temer e o ministro Meirelles em seus discursos e na feérica e milionária campanha do governo “Agora, é avançar” veiculada dia e noite nos meios de comunicação.

Avançar para onde? A propaganda oficial só não fala que vivemos num país onde ainda há quase 13 milhões de desempregados e correm, ou melhor, dormem no Supremo Tribunal Federal 12 ações diretas de inconstitucionalidade contra a tal “Lei da Modernização Trabalhista”.

De mentira em mentira, de recuo em recuo, estão criando um Brasil de fantasia nas fake news com carimbos oficiais embaladas na propaganda pública e privada de que agora tudo vai melhorar.

Bem que poderia ser verdade nesta passagem de ano, um tempo em que sempre há uma renovação de esperanças, mas os números insistem em mostrar a realidade e os Maruns da vida nadam de braçada tirando um sarro da nossa cara.

Se os fatos negam a propaganda, danem-se os fatos.

Vida que segue.


Comentário
Ainda haveria muito a comentar, especialmente sobre a qualidade dos empregos que foram criados este ano.
É o engenheiro que trabalhava nem um estaleiro, com conhecimento e valor de mercado para um salário de dez mil reais, que virou motorista de uber, ganha mil e duzentos reais, mas para o governo tem “emprego” da mesma forma que antes.
Para citar um caso que conheço pessoalmente, uma engenheira mecânica que trabalhava prestando serviço a uma grande empresa, depois de ficar desempregada por meses, para não ficar parada hoje trabalha em uma loja de colchões.
Todo o investimento feito na formação desta pessoa (em universidade federal), toda a experiência que ela possui como profissional qualificada, tudo foi para o lixo.
Estes são os empregos que o desgoverno está comemorando.
Ademais, nossa brilhante equipe econômica desconsidera a quantidade de jovens que está chegando ao mercado a cada ano em relação aos aposentados que saem, ou seja, gerar cerca de 300.000 empregos por ano é, proporcionalmente, aumentar a taxa de desemprego.

Por fim, ter Roberto Jefferson como presidente de partido é sintomático do estado (terminal) da política brasileira.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Fotografia - por Audun Rikardsen (site homônimo)

Humano assim como Jesus só Deus mesmo – por Leonardo Boff (blog homônimo)

O Natal nos faz lembrar as nossas origens humildes. O Filho de Deus não quis nascer num palácio com tudo o que lhe pertence em pompa e glória. Não preferiu um templo, com seus ritos, incensos, velas acesas e cânticos. Sequer buscou uma casa minimamente decente. Nasceu lá onde comem os animais, numa manjedoura. Os pais eram pobres operários, do campo e da oficina, a caminho de um recenseamento imposto pelo imperador romano.

Esta cena nos remete à situação presente no país e no mundo: milhões e milhões de pobres, muitos famélicos, outros tantos milhões de crianças cujos olhos quase saltam do rosto por causa da fome e da fraqueza. A maioria morre antes de atingir 3 anos. Eles atualizam para nós a condição escolhida pelo Filho de Deus.

Ao escolher aqueles que não são socialmente e os tidos como invisíveis, o Filho de Deus nos quis passar uma mensagem: há uma dignidade divina em todos estes sofredores. Face a eles devemos mostrar solidariedade e compaixão, não como pena, mas como forma de participar de sua paixão. Sempre haverá pobres neste mundo, já o disse a Bíblia. Razão a mais para sempre retomarmos a solidariedade e a compaixão. Se alguém caminha junto, estende a mão e levanta o caído, mais ainda, se alguém se faz companheiro, quer dizer, aquele que comparte o pão, o sofrimento se torna menor e a cruz mais leve.

Quem está longe dos pobres, mesmo o cristão mais piedoso, está longe de Cristo. Cabe sempre recordar a palavra do Juiz Supremo: “O que fizer ou deixar de fazer a estes meus irmãos e irmãs mais pequenos: os famintos, os sedentos, os encarcerados e os nus, foi a mim que o fez ou deixou de fazer” (Mt 25,40).

O Natal é uma festa da contradição: ela nos recorda o mundo que ainda não foi humanizado porque somos cruéis e sem piedade para com aqueles penalizados pela vida. O Natal nos recorda a mesma situação vivida pelo Verbo da vida, o Filho feito carne: “veio para o que era seu mas os seus não o receberam” (Jo 1,11).

Por outro lado, no Natal nos alegramos que Deus em Jesus “mostrou a sua bondade e jovialidade para conosco” (Epístola a Tito 3,4). Alegra-nos saber que Deus se fez criança que não julga nem condena ninguém. Quer apenas, como criança, ser acolhido mais que acolher, ser ajudado mais que ajudar.

Apraz-me terminar esta pequena reflexão com os versos do grande poeta português, Fernando Pessoa. Poucos disseram coisas mais belas do que ele sobre o Menino Jesus:

Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda certeza
Que Ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo,
Que nunca pensamos um no outro.
Mas vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo,
Como a mão direita e a esquerda.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, a mais pequena.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro de tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Depois desta beleza singela e verdadeira só me resta desejar um Feliz Natal sereno a todos dentro de nosso mundo tão conturbado. Feliz Natal!

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Fotografia - por B. Anthony Stewart (National Geographic)

Lula, PT e CUT: outra hora da verdade – por Aldo Fornazieri (Jornal GGN)


É forçoso constatar que as esquerdas brasileiras têm sido refratárias em aprender com as lições da história. Os mais eminentes clássicos da Filosofia Política sempre chamaram a atenção para o fato de que os grandes líderes políticos precisam recorrer história, extraindo dela lições negativas, para evitar caminhos que levam a derrotas, e lições positivas, seguindo como modelos as ações exemplares que levaram a grande vitórias e contribuíram para construir a grandeza do Estado e alcançar a glória imorredoura dos grandes condutores políticos e dos povos. Basta ler as biografias de um Péricles, de um Alexandre, de um Cipião, de um Júlio César, de um Otávio Augusto, de um Carlos Magno,  de um Napoleão, de um Bismark e de tantos outros, antigos e modernos, para ver como esses líderes se esmeravam no estudo da história, visando compreender os segredos das vitórias ou das derrotas, da grandeza ou da vergonha, da virtude combativa ou da covardia da fuga.
Desgraçadamente, a maior parte dos políticos brasileiros é constituída de arrogantes. Arrogância e ignorância andam juntas. Eles pressupõem que sabem tudo e, na sua desastrosa autossuficiência, se negam a aprender com a história, com os bons exemplos e com os bons conselhos. Todo líder sábio e prudente tem essas três fontes de sabedoria política: a história, os bons exemplos e os bons conselhos.
Todo golpe tem dois grandes conjuntos de causa: os erros e a inépcia dos golpeados e a ação criminosa e ilegal dos golpistas. As circunstâncias e causas que estão imbricadas no o golpe militar de 1964 e no golpe jurídico-parlamentar de 2016, são diferentes, embora algumas questões de fundo sejam as mesmas. Outro elemento comum aos dois eventos, com nuances e circunstâncias diferentes, é a conduta capitulacionista das forças de esquerda, a sua fraqueza e desorganização, a sua retórica inflamada e a sua inconsequência na ação prática.
Os líderes sindicais haviam convocado uma greve geral para 31 de março de 1964, mas, praticamente, ninguém aderiu. Com alguns líderes presos, outros foragidos, os sindicatos mostraram toda a sua debilidade. O suposto esquema militar de Jango, a rigor, era um campo minado. Jango tinha mantido em postos de comandos alguns militares que se tornaram chefes golpistas. Se não eram golpistas, eram incompetentes. O próprio general Castelo Branco era chefe do Estado Maior do Exército.
Com Dilma, não foi diferente: Temer, participava das reuniões para evitar o impeachment ao mesmo tempo articulava o golpe com alguns ministros do governo, com líderes do governo no Congresso, notadamente o senador Romero Jucá. Ministros saíram da explanada dos Ministérios para orientar as suas bancadas para derrubar Dilma. Desta vez sequer existiam tanques e baionetas. Mas também não existiam os prometidos exércitos do MST e as trincheiras do presidente da CUT. Os manifestantes do fatídico 17 de abril de 2016, é bom que se repita, no final do dia, e em face da derrota imposta por uma Câmara dos Deputados ignominiosa, que fez corar de vergonha até mesmo a grama da praça dos Três Poderes, se retiraram para as suas casas cabisbaixos e desmoralizados.
As esquerdas sofreram outras derrotas como resultado da sua impotência ou da sua omissão. No contexto das Diretas Já, após grandes mobilizações populares, se limitaram a votar contra a chapa Tancredo-Sarney no Colégio Eleitoral. Após as mobilizações pelo impeachment de Collor, nenhum saldo mais significativo. Os caras-pintas evaporaram e o resultado foi o reinado de oito anos de FHC.
Agora mesmo o governo golpista de Temer impôs a reforma trabalhista sem grande resistência de rua. No dia da votação da reforma no Senado, o presidente da CUT, Wagner Freitas, se encontrava no recinto querendo entrar no plenário. Compare-se esta atitude com a atitude dos sindicatos e dos movimentos sociais argentinos que, na última semana, cercaram o Congresso e inviabilizaram a votação da reforma da previdência naquele país. Uma das palavras de ordem entoada pelos manifestantes é que lá "não é o Brasil".
Este grito precisa vibrar nos ouvidos dos governantes argentinos, mas também dos sindicalistas e líderes sociais brasileiros. Na verdade, os sindicatos brasileiros vêm revelando uma debilidade histórica: garantidos à sombra do imposto sindical, são dirigidos por burocracias de bem viventes, bem vestidos e bem alimentados, distantes de suas bases e alheios às vicissitudes destas. Este afastamento entre direções e bases impede que nos momentos decisivos se tenha força mobilizadora, força de combate.

A interdição da candidatura Lula deve ser inaceitável e inegociável
O julgamento de Lula em 24 de janeiro pelo TRF4 será uma nova hora da verdade para as forças de esquerda e progressistas brasileiras, particularmente para o PT e para a CUT. Em que pese a resolução do Diretório Nacional do PT chamar para a mobilização, se observa um certo ar de capitulacionismo em setores do partido. A CUT está desafiada a conseguir ir além do tom declaratório dos seus dirigentes. O PT terá que mostrar que sabe ir além de si mesmo, chamando as demais forças democráticas, progressistas e de esquerda para enfrentar este último ato do golpe. Caso contrário, poderá caminhar sozinho para uma nova derrota. Pensar num plano B, neste momento, numa candidatura substituta a Lula, significa antecipar a derrota sem luta. Mas setores de esquerda são tão ufanistas e inconsequentes que acreditam que se Lula for impedido, transferirá os votos para outro candidato e o elegeria. Prefere-se acreditar em fantasias do que lutar.
As forças progressistas e de esquerda precisam perceber que existe um embate prévio às eleições: garantir o direito à candidatura Lula como uma questão democrática central, como uma questão da luta do povo contra as elites predadoras. Não cabem condutas oportunistas nessa questão, por mais ressentimentos que muitos possam ter do PT. Se surgir uma Frente Democrática e Progressista desse processo, tanto melhor. Se não surgir, as diversas candidaturas e partidos de esquerda poderão participar das eleições com a dignidade do dever cumprido se lutarem por garantir Lula na disputa.
É preciso perceber que as forças golpistas perderam a legitimidade moral junto à sociedade e que este é o momento da confraofensiva. Os fatores são vários: por ser o governo uma quadrilha;  pelo PSDB ter ser revelado um partido hipócrita, moralista sem moral; pelo STF ser um abrigo de bandidos de colarinho branco, soltando empresários corruptos, salvando Aécio Neves, abrindo mão de suas prerrogativas e rasgando a Constituição; por existirem juízes do STF e de outros tribunais tisnados pela suspeição de graves irregularidades; pela parcialidade persecutória do juiz Moro e pela suspeita de que a Lava Jato tem se tornado um balcão de negócios de Moro e dos procuradores; pelo fato de que em vários setores do Judiciário se resvalou para o arbítrio, para a exceção e se deixou de cumprir a lei. Não se pode aceitar a condenação de Lula, sem provas, por um Judiciário carcomido pela incompetência, pela corrupção, pelos privilégios, pela proteção de criminosos ricos e pela penalização dos pobres
As forças progressistas e de esquerda do Rio Grande do Sul têm o dever de se colocar na linha de frente desta luta, mobilizando os ativistas de todo o estado para ocupar Porto Alegre. Trata-se de fazer confluir caravanas de todas as regiões do estado para dizer que o último capítulo do golpe não será aceito. Trata-se, não só de ocupar Porto Alegre, mas de parar a capital gaúcha usando táticas que não se restrinjam a um mero piquenique cívico, como vem ocorrendo na Avenida Paulista.  
Os movimentos sociais e progressistas do Rio Grande do Sul precisam resgatar as virtudes combativas, de enfrentamentos cívicos, das lutas sociais e populares -virtudes e combates que estão enredados com a história do próprio estado. É preciso transformar o dia 24 de janeiro num novo paradigma da história dos progressistas e das esquerdas no Brasil. Um paradigma que seja o da organização social, do poder social e do poder da mobilização popular, escrito com brio, coragem e combatividade. Travar a luta no interior das instituições é uma necessidade, mas criar poderosas e combativas organizações e movimentos da sociedade, a exemplo do MTST, é uma garantia de que haverá lutas por direitos e dignidade e que golpes não poderão ser dados sem enfrentamentos.  
Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

Alpes de Algovia, Bavária, Alemanha - por Fabian Krueger (Fotografia - site homônimo)

Discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares - por Rádio Vaticana


Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-vos de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os excluídos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por sustentar tão decididamente este Encontro.
Então, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz» presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão «Justiça e Paz», uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro.
Deus permitiu que nos voltássemos a ver hoje. A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, teto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra.
1.     Comecemos por reconhecer que precisamos duma mudança. Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda a humanidade. Problemas, que têm uma matriz global e que atualmente nenhum Estado pode resolver por si mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos coloquemos estas perguntas:
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?
Então digamo-lo sem medo: Precisamos e queremos uma mudança.
Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada atividade laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como muitas e diferentes são as formas próprias de as enfrentar. Mas há um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos nós reconhecê-lo? É que não se trata de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?
Se é assim – insisto – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco.
Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.
Hoje quero refletir convosco sobre a mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança – poderíamos dizer – redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.
O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava «o esterco do diabo»: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.
Não quero alongar-me na descrição dos efeitos malignos desta ditadura subtil: vós conhecei-los! Mas também não basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crônica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos.
Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!
2.            Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança». A mudança concebida, não como algo que um dia chegará porque se impôs esta ou aquela opção política ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social. Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por «viver bem».
Vós, a partir dos movimentos populares, assumis as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a injustiça social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem teto, do imigrante perseguido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a sua filha porque foi sujeita à escravidão; quando recordamos estes «rostos e nomes» estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos…. Porque «vimos e ouvimos», não a fria estatística, mas as feridas da humanidade dolorida, as nossas feridas, a nossa carne. Isto é muito diferente da teorização abstrata ou da indignação elegante. Isto comove-nos, move-nos e procuramos o outro para nos movermos juntos. Esta emoção feita ação comunitária é incompreensível apenas com a razão: tem um plus de sentido que só os povos entendem e que confere a sua mística particular aos verdadeiros movimentos populares.
Vós viveis, cada dia, imersos na crueza da tormenta humana. Falastes-me das vossas causas, partilhastes comigo as vossas lutas. E agradeço-vos. Queridos irmãos, muitas vezes trabalhais no insignificante, no que aparece ao vosso alcance, na realidade injusta que vos foi imposta e a que não vos resignais opondo uma resistência ativa ao sistema idólatra que exclui, degrada e mata. Vi-vos trabalhar incansavelmente pela terra e a agricultura camponesa, pelos vossos territórios e comunidades, pela dignificação da economia popular, pela integração urbana das vossas favelas e agrupamentos, pela autoconstrução de moradias e o desenvolvimento das infraestruturas do bairro e em muitas atividades comunitárias que tendem à reafirmação de algo tão elementar e inegavelmente necessário como o direito aos “3 T”: terra, teto e trabalho.
Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as ideias; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades... Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.
Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que não só aborda a realidade setorial que cada um de vós representa e na qual felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão.
Felicito-vos por isso. É imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adoptar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.
A Igreja não pode nem deve ser alheia a este processo no anúncio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais realizam uma tarefa imensa acompanhando e promovendo os excluídos em todo o mundo, ao lado de cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo casas, trabalhando abnegadamente nas áreas da saúde, desporto e educação. Estou convencido de que a cooperação amistosa com os movimentos populares pode robustecer estes esforços e fortalecer os processos de mudança.
No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe sem teto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça. Rezo à Virgem do Carmo, padroeira da Bolívia, para fazer com que este nosso Encontro seja fermento de mudança.
3.     Por último, gostaria que refletíssemos, juntos, sobre algumas tarefas importantes neste momento histórico, pois queremos uma mudança positiva em benefício de todos os nossos irmãos e irmãs. Disto estamos certos! Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras forças sociais. Sabemos isto também! Mas não é tão fácil definir o conteúdo da mudança, ou seja, o programa social que reflita este projeto de fraternidade e justiça que esperamos. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para os problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer que não existe uma receita. A história é construída pelas gerações que se vão sucedendo no horizonte de povos que avançam individuando o próprio caminho e respeitando os valores que Deus colocou no coração.
Gostaria, no entanto, de vos propor três grandes tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos movimentos populares:
3.1    A primeira tarefa é pôr a economia ao serviço dos povos.
Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.
A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um «decoroso sustento». Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos “3 T” pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, «prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos».[1] Isto envolve os “3 T” mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós – e outros povos também – resumis este anseio duma maneira simples e bela: «viver bem».
Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de «todos os homens e do homem todo».[2] Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros objetivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da «produtividade», continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projeto de Jesus.
A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres agitam este copo que, por si só, nunca derrama. Os planos de assistência que acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário.
Neste caminho, os movimentos populares têm um papel essencial, não apenas exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global.
Conheci de perto várias experiências, onde os trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária, conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia idólatra. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores de papelão são exemplos desta economia popular que surge da exclusão e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adopta formas solidárias que a dignificam. Quão diferente é isto do fato de os descartados pelo mercado formal serem explorados como escravos!
Os governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia ao serviço das pessoas devem promover o fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infraestruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste sector alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem, juntos, a missão dos “3 T”, ativam-se os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e participativa.
3.2          A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça.
Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados. Nenhum poder efetivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afetam seriamente as possibilidades de paz e justiça, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência».[3]
Os povos da América Latina alcançaram, com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições procurando conquistar uma independência plena.
Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a «Pátria Grande». Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça.
Apesar destes avanços, ainda subsistem fatores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e limitam a soberania dos países da «Pátria Grande» e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anônimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados «de livre comércio» e a imposição de medidas de «austeridade» que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que «as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações».[4] Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma ação internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores.
Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adopta o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em «peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante».[5]
Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interação dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer ato de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos econômicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode atuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interação não é sinônimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos... precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.
Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.
Aqui quero deter-me num tema importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: «Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas ações da Igreja». Com pesar, vô-lo digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja «se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos».[6] E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América.
Peço-vos também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz; que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo até ao martírio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar.
Aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta interculturalidade que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos a todos.
3.3    A terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.
A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de atuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica mas tenazmente – a adoção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.
4.     Para concluir, quero dizer-lhes novamente: O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vós, rezo convosco e quero pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém de pé: esta força é a esperança, a esperança que não decepciona. Obrigado! E peço-vos, por favor, que rezeis por mim.
[1] JOÃO XXIII, Carta enc. Mater et Magistra (15 de Maio de 1961), 3: AAS 53 (1961), 402.
[2] PAULO VI, Carta enc. Popolorum progressio, 14.
[3] PONTIFÍCIO CONSELHO «JUSTIÇA E PAZ», Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 157.
[4] V CONFERÊNCIA GERAL DO EPISCOPADO LATINO-AMERICANO E DO CARIBE (2007), Documento de Aparecida, 66.
[5] JOÃO PAULO II, Exort. ap. pós-sinodal Ecclesia in Africa (14 de Setembro de 1995), 52: AAS 88 (1996), 32-33. Cf. IDEM, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 22: AAS 80 (1988), 539.